O segundo homem do coronel se chamava Lauro Farias.
Ele não tinha a pressa barulhenta de Vicente.
Montava devagar, com o corpo reto e os olhos sempre medindo distância.

Quem vivia no sertão sabia reconhecer aquele tipo.
Era homem que não gritava porque já tinha visto muito grito acabar em nada.
Lauro parou à beira do terreiro, perto da gamela de pedra.
Atrás dele, cinco cavaleiros abriram um leque em volta do olho-d’água.
Ana Beatriz ficou na porta da casa, com o CADERNO escondido sob o xale.
Joaquim Avelar estava no meio do terreiro, sem arma na mão.
O delegado Nogueira fingia examinar a sela.
Padre Bento já tinha desaparecido pela vereda estreita, levando a cópia no peito.
‘Lauro’, disse Joaquim.
O capanga estreitou os olhos.
‘Então é verdade que você conhece nomes.’
‘Conheço homens também.’
Lauro cuspiu na poeira.
‘O coronel mandou uma oferta. Cinquenta contos de réis para você e a moça sumirem antes da noite.’
Ana apertou o xale contra o corpo.
A quantia compraria muita terra.
Compraria silêncio em quase toda comarca.
Mas não compraria uma nascente que sustentava uma vida inteira.
‘Essa água não está à venda’, ela disse.
Lauro nem olhou para ela.
Falou com Joaquim, como se Ana fosse parte da cerca.
‘Você não é daqui. Pode ir embora rico.’
Joaquim olhou para a pedra molhada da nascente.
‘Eu passei anos vendo homem poderoso chamar roubo de negócio.’
Depois olhou para o papel falso na mão de Vicente.
‘Hoje estou cansado do sotaque.’
Lauro levou a mão ao revólver.
O tiro de Joaquim saiu seco.
A arma de Lauro caiu antes de deixar o coldre.
Ele gritou, segurando a mão, e o cavalo deu dois passos para trás.
Ao mesmo tempo, dois vaqueiros tentaram cortar pela lateral do curral.
Não viram o arame baixo que Joaquim havia esticado entre os mourões.
Os cavalos travaram, relincharam e levantaram poeira.
Da janela pequena do depósito, Ana ergueu a carabina do pai.
O primeiro disparo dela bateu no chão, bem à frente do cavalo mais atrevido.
‘A próxima não é aviso.’
A voz dela não tremeu.
Foi ali que o terreiro mudou de dono.
Não porque Joaquim fosse mais rápido.
Não porque Ana tivesse uma arma.
Mudou porque todos viram que o medo tinha trocado de lado.
Lauro ainda tentou sorrir.
‘Pacheco não vai aceitar isso.’
Joaquim caminhou até ele, sem pressa.
‘Diga ao coronel que Ana tem o CADERNO de Antônio Gusmão.’
O sorriso de Lauro morreu.
‘Diga que a carta do antigo guarda-livros também chegou às minhas mãos.’
O delegado Nogueira deixou cair as rédeas.
Pela primeira vez, Ana viu pavor nele.
‘Diga ainda que padre Bento está indo ao juiz de direito.’
Joaquim parou perto do cavalo de Lauro.
‘E diga que eu não vim pela água. Vim pelo homem que andava comprando delegado.’
Os cavaleiros foram embora em fila ruim.
Vicente seguia curvado.
Lauro ia calado.
Nogueira ficou para trás, preso entre fugir e obedecer ao próprio cargo.
No fim, não fez nenhum dos dois.
Só ficou branco.
Naquela noite, ninguém dormiu na Fazenda Riacho Fundo.
Ana guardou o original do CADERNO dentro de uma lata de farinha.
Joaquim ficou no telhado do paiol, com a carabina atravessada nos joelhos.
O sertão fazia seus ruídos pequenos.
Grilo.
Couro rangendo.
Água pingando na pedra.
Perto da meia-noite, Ana subiu uma escada baixa e levou café coado em caneca de folha.
‘Você podia ter ido embora com o dinheiro’, ela disse.
‘Eu já fui embora de coisa demais.’
Ela sentou a dois palmos dele.
‘Quem foi você antes daqui?’
Joaquim demorou.
Depois contou só o suficiente.
Disse que servira a uma força da Corte, caçando homens que falsificavam título de terra.
Disse que largara o cargo depois de uma diligência acabar com gente inocente morta.
Disse que o coronel Pacheco aparecera em relatórios demais para ser acidente.
Ana escutou sem interromper.
Algumas pessoas fazem barulho para parecer fortes.
Outras ficam quietas porque a força já cansou de se explicar.
De manhã, o padre voltou com a batina coberta de poeira.
Não voltou sozinho.
Trouxe dois soldados provinciais e um escrivão da comarca.
O juiz não viera, mas mandara ordem assinada.
O papel determinava que o delegado Nogueira entregasse o cargo até esclarecimento.
Também mandava apreender os livros do escritório do coronel.
Nogueira tentou falar em honra.
O escrivão leu a ordem mais alto.
A mão do delegado procurou o distintivo no peito e não encontrou coragem nele.
Foi quando padre Bento atravessou o terreiro.
Ele parou diante de Ana.
‘Teu pai me procurou antes de morrer.’
Ana sentiu o mundo estreitar.
‘Ele sabia que estavam comprando gente.’
O padre tirou do bolso uma chave pequena, amarrada em barbante.
‘Me entregou isto. Eu deveria ter vindo antes.’
A chave abria o cofre do altar da capela.
Dentro dele havia a segunda metade do CADERNO.
Não eram só ameaças.
Eram recibos.
Pacheco assinara pagamentos por fora ao delegado, ao tabelião e a dois fiscais da ferrovia.
A assinatura dele aparecia limpa, vaidosa e impossível de negar.
Quando os soldados chegaram à casa grande do coronel, Pacheco estava almoçando carne de sol.
Recebeu a notícia com riso curto.
‘Quem assinou essa ordem?’
‘O juiz de direito.’
‘Quem pediu?’
O escrivão apontou para Joaquim.
Pacheco finalmente perdeu a cor.
‘Você.’
Joaquim tirou o chapéu.
‘Eu.’
O coronel tentou levantar.
Um soldado pôs a mão no ombro dele.
Não houve cena grande.
Só a cadeira raspando no chão.
Só o silêncio dos empregados na porta.
Só um homem que mandava em todos descobrindo que papel verdadeiro pesa mais que ameaça.
O processo levou anos.
Mesmo assim, a fonte nunca saiu das mãos de Ana Beatriz.
As terras compradas sob medo foram revistas.
O delegado perdeu o cargo.
O tabelião perdeu a mesa.
Pacheco perdeu primeiro os contratos da ferrovia.
Depois perdeu os amigos.
Por fim, perdeu a casa grande.
Ana fez com a água o que o pai sempre planejou.
Arrendou passagem para o gado em tempo seco, mas só nos seus termos.
Abriu uma escola simples perto do curral velho.
Depois ajudou a manter uma enfermaria pequena na vila.
Quem bebia da nascente pagava justo.
Quem precisava de água para sobreviver não pagava nada.
Joaquim ficou onze dias.
Consertou a porteira sul.
Reforçou as tábuas do depósito.
Bebeu café na varanda, sempre em silêncio primeiro.
No décimo segundo dia, selou o alazão.
Ana desceu os degraus com o CADERNO nas mãos.
‘Você podia ficar.’
Ele olhou para ela por tempo demais.
‘Você não precisa que eu fique.’
‘Eu não disse que precisava.’
Aquilo quase quebrou a defesa dele.
Quase.
Joaquim tocou a aba do chapéu.
‘Ainda há um homem em Feira que assinou coisa que não devia.’
Ana entregou a ele uma página copiada.
‘Então leve prova, não culpa.’
Ele guardou a folha junto ao peito.
Depois montou e tomou a trilha do sul.
O cavalo alazão passou pelo olho-d’água sem parar.
A nascente seguiu fria.
A fazenda seguiu viva.
E Ana Beatriz nunca vendeu a água.
Anos depois, todo agosto, ela colocava duas canecas na pedra da nascente.
Uma ela bebia.
A outra ficava cheia até o sol baixar.
Muita gente dizia que era promessa.
Outros diziam que era saudade.
Eu sei porque era outra coisa.
Eu era o rapaz encostado no umbuzeiro naquela manhã.
Fui eu que vi padre Bento olhar para o chão.
Fui eu que vi o delegado perder a cor.
Fui eu que ouvi Joaquim dizer três palavras.
‘Solte ela.’
O tiro ficou famoso.
Mas não foi o tiro que salvou aquela terra.
Foi um caderno escondido.
Foi uma mulher que não assinou.
Foi um homem culpado que decidiu dizer a verdade tarde, mas ainda em tempo.
E foi a água, correndo fria, lembrando a todos que poder nenhum é dono da sede de ninguém.