Naquela noite, o sonho veio com chuva, pão mofado e o gosto ruim de derrota.
Eu era a vilã de um romance barato, e Caio Valença se cansava de mim até me expulsar.
Os Avelar quebravam.

Eu acabava na rua, encharcada, dividindo pão com cachorros famintos.
Acordei em pânico, com o pijama de seda colado na pele.
A cobertura em São Paulo parecia bonita demais para aquele medo.
Eu olhei para o armário, para o cartão black, para o silêncio da cidade lá embaixo, e fiz uma promessa.
Eu seria a esposa ideal.
Doce.
Gentil.
Fácil de amar.
Mesmo que fosse mentira, eu sustentaria o papel.
Na manhã seguinte, Caio se preparava para voar para a Europa.
Ele fechava uma fusão gigantesca, com a calma limpa de quem controlava tudo.
Eu o encontrei no closet e mostrei o colar rosa na tela do celular.
Ele me olhou por cima do ombro, ainda prendendo os punhos do terno sob medida.
‘Você vai me trazer isso.’
‘Não aceito desculpa.’
Ele me beijou no canto da boca antes de sair.
‘Eu compro.’
‘Só não me torture enquanto eu estiver fora.’
Eu quase sorri como a velha Isadora, mas me segurei.
Durante a semana, eu enchi a caixa de conversa com áudios curtos e sem vergonhas.
Quero macarons de trufa preta da confeitaria do Jardins.
Meu vestido novo está horrível.
Que horas você chega?
Cada mensagem parecia um teste, e eu me odiava um pouco por isso.
Às 3h da manhã, eu liguei para ele sem pensar.
Queria ver o céu europeu e sentir que ainda tinha algum controle.
Caio atendeu no primeiro toque.
Atrás dele, executivos de terno ficaram parados na sala inteira.
Ele saiu da reunião, foi até uma janela enorme e me ouviu reclamar da vista.
‘A da nossa cobertura é melhor.’
Ele riu baixo.
‘Eu te mostro a de casa quando voltar.’
Bia me mandou uma mensagem logo depois.
Você está no limite máximo de diva.
Caio vai fugir de você um dia desses.
Eu respondi com um sorriso arrogante que quase parecia verdade.
Homens fazem fila por mim.
Mesmo assim, um medo pequeno ficou preso na borda do meu peito.
Caio sempre me amava com muita disciplina.
Era como se ele escondesse a parte mais perigosa de si.
A parte que eu ainda não conhecia.
Foi quando Renata apareceu.
Ela copiava meus vestidos, comprava minhas bolsas e se aproximava de Caio como se tivesse ensaiado cada passo.
Na foto do baile da fundação, ela tinha derramado vinho no terno dele e deixado a mão grudada no peito de Caio.
Aquilo me queimou por dentro.
Eu dirigi até a torre da Faria Lima sem diminuir o passo.
Quando cheguei, joguei o celular na mesa dele e mandei:
‘Explique.’
Caio leu a foto, tirou o telefone do gancho e cortou as colaborações do grupo Avelar na mesma hora.
Sem discussão.
Sem hesitação.
Aquela foi a primeira pequena vitória do meu desastre.
Achei que o assunto tinha morrido ali.
Mas o pesadelo voltou naquela mesma semana.
Desta vez, eu era a esposa insuportável de um livro chamado A Substituta do CEO.
Caio tinha esgotado a paciência.
Minha família afundava.
Eu chorava de joelhos na chuva, e ele dizia que estava cansado de mim.
Acordei tremendo tanto que precisei sentar na cama.
Não podia deixar aquele fim virar real.
Então comecei a me desintoxicar de mim mesma.
Três dias sem um texto irritante.
Três dias lutando contra o impulso de explodir o telefone.
Troquei insultos por carinho demais.
Trabalhe muito, amor.
Não esqueça de se cuidar.
Beijos.
Caio demorou a responder.
Quando respondeu, foi só um ponto.
Eu quase desmontei a cama inteira de raiva.
No dia em que ele voltou, escolhi um vestido branco de algodão e fiquei em casa esperando.
Sem motorista.
Sem show.
Sem drama.
Quando a porta fez clique às 20h, eu corri até ele com um sorriso ensaiado.
‘Bem-vindo, amor.’
Abaixei e coloquei as pantufas diante dos pés dele.
Até então, era sempre ele quem fazia isso por mim.
Caio travou.
O assistente trazia a mala atrás dele, mas ele mal olhou para nada.
‘Teve um problema no leilão.’
‘Um magnata do petróleo levou o colar por um preço absurdo.’
‘Já mandei minha equipe tentar comprar com ágio.’
Meu coração afundou.
Mas o medo do sonho pesou mais que a frustração.
‘Sem problema.’
‘É só um colar.’
‘Eu nem queria mais tanto assim.’
A mudança na sala foi imediata.
Silêncio puro.
Caio ficou branco antes de me tocar.
Ele agarrou meu pulso com força demais.
‘Por que você não quer mais?’
‘Você sempre dizia que precisava dele.’
‘Isadora, você está tentando me deixar?’
‘Você quer outra vida?’
‘Ou já encontrou outro homem?’
Eu fiquei olhando para ele, sem entender de verdade.
‘Você está me machucando.’
Ele me soltou na mesma hora, apavorado com a própria força.
‘Eu sinto muito.’
‘Fala a verdade.’
‘Você não quer o colar.’
‘Você me esperou.’
‘Você está de algodão.’
Ele apontou para o meu vestido como se ele fosse uma prova contra mim.
‘Isso não é você.’
‘Você está indo embora.’
‘Não estou indo embora.’
‘Eu só estou tentando ser um abrigo para você.’
Ele me olhou como se eu tivesse falado uma língua morta.
Depois subiu a escada com os ombros caídos.
Pela primeira vez, o grande Caio Valença parecia derrotado.
E eu achei que tinha vencido.
Nas duas semanas seguintes, a cobertura virou um experimento social sem graça.
Eu fazia o café às 6h.
Queimei a mão duas vezes.
Levei a xícara para ele com um sorriso obediente.
‘Onde aprendeu isso?’ ele perguntou.
‘Em lugar nenhum.’
‘Jamaica blue mountain, do jeitinho que você gosta.’
Ele tomou um gole e mentiu que era ótimo.
Depois eu disse que o orçamento da compradora podia ir para orfanatos.
Ele me encarou como se eu estivesse doente.
Rumor de sanatório surgiu no mesmo dia.
Eu continuei a encenação.
Ele começou a sumir do jantar.
Quando aparecia, olhava para mim com um susto silencioso.
Depois veio a Birkin verde neon.
Horrível.
Perfeita demais para ser ignorada.
‘Vi isso e pensei em você.’
Eu agradeci com a voz mais doce do mundo.
Ele me chamou de mentirosa por gostar daquilo.
Então bateu na parede com a mão fechada.
O gala anual da Fundação Valença aconteceu quando a tensão já tinha virado vício.
Eu vesti azul-marinho, prendi o cabelo e entrei como uma esposa modelo.
Renata apareceu de branco, copiando meu último vestido com descaramento.
Ela encostou a mão no braço de Caio e tentou me provocar com um sorriso mole.
Eu quase perdi a cabeça.
Mas segurei.
Eu sorri.
‘Ela só quer atenção.’
‘Nós somos civilizados.’
Caio me lançou um olhar estranho e saiu para a varanda.
Eu fui atrás.
Lá fora, o vento frio de São Paulo bateu direto no meu rosto.
Ele virou para mim com a raiva inteira estampada no rosto.
‘Para com isso.’
‘Com o quê?’
‘Com essa versão limpa.’
‘Quem é você agora?’
‘Onde está a mulher que quebrava taças por causa de um comentário ruim?’
‘Ela sumiu.’
‘Estou tentando ser boa.’
‘Estou tentando ser o que você quer.’
Caio riu com amargura.
‘Eu nunca quis uma esposa domesticada, Isadora.’
‘Eu queria você.’
Ele andou até mim, impaciente e quase desesperado.
‘Eu me apaixonei pela tempestade.’
‘Quando você grita, eu sei que está aqui.’
‘Quando você exige, eu sei que ainda me quer.’
‘Esse sorriso educado parece que você já foi embora.’
Ele segurou meus ombros com força.
‘Por que você não lutou por mim?’
Eu disse a verdade antes que minha coragem evaporasse.
‘Porque eu sonhei que você me largava.’
‘Porque eu vi minha família quebrar.’
‘Porque eu não queria comer pão mofado na rua.’
‘Eu tentei virar outra pessoa.’
Ele ficou me olhando, mudo.
Então soltou minha cintura devagar.
‘Amor bom não pede silêncio.’
‘Pede coragem.’
Ele tirou uma caixa de veludo do bolso e me mostrou o colar rosa que eu vinha perseguindo desde o começo.
‘Eu paguei três vezes o valor.’
‘Eu só não te dei antes porque queria ouvir você me exigir isso.’
Eu o chamei de doente.
Ele sorriu como se aquilo fosse um elogio.
‘Nós combinamos.’
Quando ele fechou o colar no meu pescoço, o frio da pedra me arrepiou inteira.
Depois, ele inclinou a cabeça e falou como quem devolvia o meu corpo para mim.
‘Agora volta para dentro.’
‘Vai até a Renata e diz exatamente o que você pensa do vestido dela.’
A moda foi embora de mim na mesma hora.
A velha Isadora voltou com tudo.
Eu cruzei a varanda como se tivesse ganhado uma guerra.
Renata estava perto da mesa dos doces, fingindo ser inocente.
Eu parei diante dela e olhei de cima a baixo.
‘Aquele branco está te afogando.’
‘Parece roupa emprestada.’
‘E, sinceramente, para de encostar no meu noivo.’
O salão inteiro parou para ouvir.
Caio ficou atrás de mim como se estivesse protegendo uma coroa.
Renata ficou vermelha até a raiz do cabelo.
Eu tomei a taça de champanhe de um garçom e virei tudo de uma vez.
‘Agora reabastece.’
Caio pegou a taça vazia da minha mão com um sorriso devoto.
‘Como quiser, Isadora.’
Depois disso, o sonho nunca mais voltou.
Descobri o tal livro numa livraria uma vez.
Comprei todos os exemplares da cidade e mandei queimar na lareira da casa de campo em Campos do Jordão.
A ideia me trouxe paz.
Nos casamos num evento tão caro que parecia até provocação.
Eu gritei com a florista.
Demiti a cerimonialista três vezes.
Fiz Caio trocar o smoking duas vezes no mesmo dia.
Ele chorou quando me viu entrar.
A vida, depois disso, entrou num ritmo perigoso e delicioso.
Caio invadia meu escritório em casa no meio de uma videoconferência com o ministro do Japão.
Ele levantava a mão para a tela e mandava a reunião calar a boca sem remorso.
‘Você falou que o novo chef colocou coentro na salsa.’
‘Eu avisei que tenho aversão genética. Tem gosto de sabão.’
Ele já estava pegando o telefone para demitir o homem.
‘Vou resolver agora.’
‘Quer que eu cancele o jantar e peça voos para a Cidade do México?’
Eu cruzei os braços e fingi pensar.
‘Só se for no jato novo.’
‘Aquele couro está duro demais.’
‘Fechado.’
Ele me beijou como se ainda estivesse tentando me convencer a ficar.
E eu deixei.
Porque o mundo via uma esposa insuportável e um marido rendido.
Eu via outra coisa.
Via um homem que só sabia ficar em pé quando eu o desafiava.
Via um bilionário que controlava tudo, menos o meu humor.
E ele não trocaria isso por nada.