O Cachorro Que Levava Seu Brinquedo Ao Leito Da Amiga Doente-Neyney

Todas as manhãs, nos últimos dois meses de vida da nossa cadela que estava morrendo, Buddy atravessava a casa com o coelho azul na boca.

Ele não corria.

Não balançava o brinquedo como fazia quando queria chamar alguém para brincar.

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Ele caminhava como quem carregava algo frágil.

A casa ainda tinha cheiro de café coado quando isso acontecia, e a luz entrava pela janela da sala antes que as crianças terminassem de vestir o uniforme.

Eu costumava estar na cozinha, com uma mão na pia e outra tentando lembrar se já tinha separado o lanche da escola.

Naqueles dias, tudo dentro de mim parecia funcionar no automático.

Bella ficava no cercadinho aberto da sala, deitada sobre três cobertores, com o pote de água perto o bastante para que ela não precisasse levantar.

A porta do cercadinho nunca ficava fechada.

A ideia era simples: se ela tivesse força, poderia sair; se não tivesse, continuaria no meio da família, ouvindo a televisão, os passos das crianças, o ventilador, os pratos na pia.

Eu não queria que ela passasse os últimos dias escondida num quarto.

Marcelo também não queria.

Bella tinha sido dele antes de ser minha.

Quando conheci Marcelo, ele falava pouco sobre o casamento anterior, menos ainda sobre os anos que vieram depois, mas sempre falava de Bella com um tipo de gratidão que eu só compreendi muito tempo depois.

Ela o tinha acompanhado em mudanças de apartamento, domingos vazios e noites em que a casa parecia grande demais para uma pessoa só.

Era uma boxer misturada, tigrada, de nove anos, com o focinho ficando grisalho e uma paciência que parecia maior do que o corpo.

Quando nosso filho pequeno deitava a cabeça nela como travesseiro, Bella só piscava.

Quando nossa filha puxava um cobertor para fazer cabana no sofá, Bella entrava junto e ficava parada, como se aquela fosse uma obrigação importante.

Ela era a parte calma da casa.

Buddy era o contrário.

Buddy chegou dois anos antes da doença de Bella, amarelo, desajeitado, com patas grandes demais e uma alegria que parecia sempre atrasada para sair do corpo.

Ele derrubava potes, escorregava no piso, entrava na área de serviço como se tivesse sido chamado para uma missão urgente e depois esquecia qual era a missão.

Ainda assim, desde o primeiro dia, ele escolheu Bella.

Seguía-a da sala para a cozinha, da cozinha para o corredor, do corredor para o tapete.

Deitava encostado nela mesmo quando ela suspirava de impaciência.

No começo, Bella apenas tolerava.

Com o tempo, passou a permitir.

Depois passou a procurar.

Foi assim que a amizade deles se formou, sem anúncio, sem cena bonita, sem nada que a gente entendesse na hora.

Só um cachorro jovem aprendendo a diminuir o próprio barulho perto de uma cadela mais velha.

Buddy tinha um coelho de pelúcia azul.

Era o brinquedo mais feio da casa.

Não tinha mais as duas orelhas.

A barriga tinha sido costurada duas vezes com uma linha que não combinava com o tecido.

O enchimento aparecia por uma abertura pequena, e uma das patas ficava torta para o lado, como se o coelho tivesse se cansado de tentar parecer novo.

Buddy amava aquele brinquedo além de qualquer explicação.

Ele dormia com ele encostado no peito.

Levava o coelho até a porta quando Marcelo voltava do trabalho.

Se as crianças choravam, Buddy às vezes aparecia com o coelho, como se aquilo fosse uma solução possível.

Ninguém ensinou isso a ele.

Talvez por isso a gente demorou tanto para entender.

Naquela primavera, Bella começou a mudar de um jeito que não dava para disfarçar.

Primeiro, cansava no meio do corredor.

Depois, parou de subir no sofá.

Em seguida, passou a olhar para o pote de água como se a distância entre ela e o pote tivesse ficado maior durante a noite.

Levei Bella à veterinária numa manhã de terça-feira.

Voltei com um silêncio dentro do carro.

Câncer.

Descoberto tarde.

Espalhado.

A veterinária foi cuidadosa, mas não mentiu.

Disse que havia formas de aliviar a dor, formas de manter Bella confortável, formas de acompanhar os sinais.

Não havia forma de impedir o que já estava acontecendo.

Semanas, talvez um ou dois meses.

Marcelo ficou sentado na sala muito tempo depois que contamos às crianças.

Ele não chorou de um jeito grande.

Só passou a mão na cabeça da Bella, de novo e de novo, como se estivesse memorizando o formato dela.

As crianças fizeram perguntas pequenas.

Se ela ia sentir dor.

Se ela ia dormir muito.

Se Buddy sabia.

Eu disse que não sabia responder tudo.

Era a verdade mais honesta que eu tinha.

Colocamos o cercadinho na sala naquela mesma semana.

O tapete foi dobrado para abrir espaço.

Uma toalha velha ficou por baixo dos cobertores.

Marcelo trouxe o pote de água para perto.

Minha filha colocou um paninho de boneca no canto, porque achou que Bella poderia gostar.

Bella entrou, cheirou os cobertores e deitou com cuidado.

Buddy ficou do lado de fora, inquieto, olhando para nós como se tivéssemos mudado uma regra essencial da casa sem avisar.

Na primeira manhã, encontrei o coelho azul dentro do cercadinho.

Ele estava ao lado da pata dianteira de Bella.

Achei que Buddy tivesse entrado ali durante a noite e deixado cair.

Peguei o brinquedo e devolvi para a caminha dele.

Na segunda manhã, o coelho estava de novo no mesmo lugar.

Dessa vez, mais perto do pescoço de Bella.

Ainda pensei em acidente.

A gente inventa explicações simples quando a verdade exige mais coragem.

Na terceira manhã, eu vi.

Buddy pegou o coelho da caminha com uma delicadeza que não combinava com ele.

Atravessou a sala sem tropeçar em nada.

Passou pela mesa com a toalha plástica, pelo chinelo de Marcelo e pela mochila da minha filha.

Parou na frente do cercadinho.

Bella estava acordada, mas cansada demais para erguer a cabeça.

Buddy abaixou o focinho e colocou o coelho azul ao lado dela.

Não empurrou o brinquedo contra ela.

Não latiu.

Não cutucou.

Não pediu resposta.

Ele apenas deixou ali.

Depois deu dois passos para trás, deitou no piso e ficou olhando.

A primeira coisa que senti foi confusão.

A segunda foi negação.

Eu disse para mim mesma que Buddy queria brincar e não entendia que Bella não conseguia mais.

Era mais fácil acreditar nisso.

Era mais fácil imaginar um cachorro atrapalhado do que aceitar que ele talvez soubesse algo que eu ainda estava tentando não saber.

Nos dias seguintes, aquilo virou rotina.

De manhã, o coelho aparecia no cercadinho.

Às vezes Buddy levava depois do café das crianças.

Às vezes levava antes mesmo de Marcelo sair.

Se alguém devolvia o brinquedo para a caminha, Buddy esperava um pouco e levava de novo.

Ele não parecia irritado.

Não parecia confuso.

Parecia decidido.

Minha filha de onze anos foi a primeira a dizer a frase que eu não queria ouvir.

Ela estava parada na porta da cozinha, com a mochila nas costas e o cabelo ainda molhado do banho.

Buddy tinha acabado de deixar o coelho ao lado de Bella e se deitar perto.

Minha filha olhou para mim e disse que ele estava dando as coisas dele porque Bella estava triste.

Eu respondi que cachorros não pensavam assim.

A resposta saiu depressa demais.

Ela me encarou com uma paciência antiga, dessas que crianças às vezes têm quando enxergam melhor do que os adultos.

«Mãe», ela disse, sem discutir, «ele sabe».

Eu não respondi.

A partir daquele dia, comecei a prestar atenção de outro jeito.

Buddy não levava qualquer brinquedo.

Não levava a bolinha.

Não levava a corda.

Não levava o osso de borracha que ele roía depois do almoço.

Levava o coelho azul.

Sempre o coelho azul.

O melhor que ele tinha.

Houve manhãs em que Bella nem abriu os olhos.

Buddy deixava o brinquedo mesmo assim.

Houve tardes em que ela respirava com esforço, e ele ficava deitado na sala, sem dormir, acompanhando cada movimento dela.

À noite, quando as crianças iam para o quarto, Marcelo e eu nos sentávamos no chão ao lado do cercadinho.

A televisão ficava ligada sem som.

Buddy se posicionava do outro lado, como se todos nós estivéssemos fazendo uma vigília que ninguém tinha combinado.

A doença foi diminuindo Bella em partes.

Primeiro foi a disposição.

Depois o apetite.

Depois a força de levantar.

O corpo dela parecia estar se afastando antes dela.

Mas os olhos continuavam os mesmos por mais tempo do que parecia justo.

Em alguns momentos, Bella olhava para Buddy e piscava devagar.

Não sei se era agradecimento.

Não sei se era cansaço.

Sei apenas que Buddy não desviava.

O dia em que Bella morreu foi silencioso demais.

Não houve cena grande.

Não houve corrida.

Não houve um último latido.

Ela estava deitada no cercadinho, com a cabeça apoiada no cobertor, quando a respiração ficou mais distante.

Marcelo estava com a mão sobre ela.

Eu estava ao lado dele.

As crianças tinham se despedido antes, com a delicadeza que a gente pede de uma criança mesmo quando não sabe se é justo pedir.

Buddy estava deitado no piso.

O coelho azul estava dentro do cercadinho, encostado na manta.

Quando a respiração de Bella parou, Buddy levantou a cabeça.

Só isso.

Levantou a cabeça e ficou olhando para ela.

Marcelo fechou os olhos.

Eu coloquei a mão na boca para segurar um som que eu não queria que as crianças ouvissem.

Buddy não se aproximou.

Não latiu.

Não puxou a manta.

Ele ficou quieto, como se o mundo tivesse feito um movimento que ele já esperava, mas que ainda assim não sabia aceitar.

Enterramos Bella no jardim, num canto perto do muro, onde pegava sol de manhã.

Não foi uma cerimônia.

Foi só a nossa família, a terra úmida, uma pá e o tipo de tristeza que deixa todo mundo mais baixo.

Marcelo embrulhou Bella no cobertor favorito dela.

Minha filha colocou o paninho de boneca junto.

Meu filho deixou uma flor pequena que pegou do vaso da varanda.

Buddy ficou preso dentro de casa durante essa parte, porque eu tinha medo de que ele tentasse entrar no buraco ou puxar o cobertor.

Ele choramingou atrás da porta.

Esse som ficou comigo a noite inteira.

Depois, a casa pareceu grande.

Grande demais para uma cadela que tinha ficado deitada no meio da sala por semanas.

O cercadinho continuou lá até a madrugada.

Eu não tive coragem de desmontar.

O pote de água ficou no mesmo lugar.

O coelho azul ficou na caminha de Buddy, porque Marcelo, sem falar nada, tinha tirado o brinquedo do cercadinho antes de guardar os cobertores.

Achei que talvez Buddy fosse dormir com ele.

Achei que talvez segurasse o coelho como sempre fazia.

Mas Buddy não dormiu.

Passou a noite indo da sala para a porta dos fundos.

Depois voltava.

Depois cheirava o lugar onde o cercadinho tinha ficado.

Eu levantei duas vezes.

Na segunda, sentei no chão e chamei o nome dele.

Ele veio até mim, encostou a cabeça no meu joelho por alguns segundos e depois voltou para a porta.

Na manhã seguinte, acordei com um silêncio estranho.

Não era paz.

Era ausência.

Fui para a cozinha sem acender a luz, coloquei água no filtro do café e apoiei as duas mãos na pia.

Pela janela, vi o jardim ainda úmido.

A terra no canto perto do muro estava mais escura.

Então vi Buddy.

Ele estava atravessando o quintal com o coelho azul na boca.

Por um segundo, meu cérebro recusou a cena.

Eu tinha certeza de que o brinquedo ficara na caminha dele.

Mas lá estava ele, caminhando devagar pelo cimento, descendo para a grama e indo direto ao lugar onde Bella estava enterrada.

Chamei Marcelo sem tirar os olhos da janela.

Minha voz saiu tão baixa que achei que ele não ouviria.

Ele ouviu.

Veio para a cozinha e parou atrás de mim.

Buddy chegou ao pequeno monte de terra.

Parou.

O coelho pendia da boca dele, gasto e torto, exatamente como tinha ficado ao lado de Bella durante aquelas semanas.

Ele abaixou o focinho.

Com a mesma delicadeza do cercadinho, colocou o brinquedo sobre a terra.

Não ao lado.

Sobre.

Depois recuou dois passos.

Sentou.

E ficou olhando.

Minha filha apareceu na porta da cozinha naquele instante.

Eu não sei quanto tempo ela esteve ali.

Sei que ela viu o suficiente.

A mão dela subiu à boca, e os olhos encheram de lágrimas sem que ela fizesse barulho.

«Ele trouxe para ela», ela sussurrou.

Dessa vez, eu não corrigi.

Não disse que cachorros não pensam assim.

Não disse nada.

Buddy ficou sentado diante da terra por muito tempo.

Depois, para nossa surpresa, levantou uma pata e cavou de leve perto do coelho.

Não tentou abrir o lugar onde Bella estava.

Não fez força.

Só puxou um pouco de terra solta, como se quisesse prender o brinquedo ali para que ele não fosse embora com o vento.

Marcelo abriu a porta dos fundos devagar.

Buddy olhou para nós.

Não parecia culpado.

Não parecia assustado.

Parecia apenas cansado.

Marcelo saiu primeiro.

Eu fui atrás.

Minha filha ficou na porta, chorando baixinho.

Quando chegamos perto, Buddy deu um passo para trás e deitou na grama, do mesmo jeito que fazia na sala.

Ele não queria que pegássemos o coelho.

Ele queria ficar de guarda.

Marcelo se agachou ao lado da terra.

A mão dele tremia.

Por um instante, achei que ele fosse pegar o brinquedo e trazer para dentro, porque aquele coelho era o objeto mais precioso do Buddy.

Mas ele não pegou.

Ele só ajeitou a terra ao redor, com os dedos, sem cobrir completamente o azul.

Depois passou a mão na cabeça de Buddy.

«Está bem», ele disse.

Foi uma frase simples.

Mas Buddy fechou os olhos por um segundo, como se tivesse entendido que a oferta tinha sido aceita.

Deixamos o coelho ali naquele dia.

À tarde, uma garoa fina começou a cair, e eu pensei em recolher o brinquedo para ele não estragar ainda mais.

Buddy percebeu meu movimento antes que eu abrisse a porta.

Levantou da sala e ficou entre mim e a saída.

Não rosnou.

Não latiu.

Só ficou parado.

Eu entendi.

O coelho já não era nosso.

Nem mesmo dele.

Era de Bella.

Nos dias que seguiram, Buddy criou uma nova rotina.

De manhã, ia até o jardim, cheirava o coelho, deitava perto da terra por alguns minutos e depois voltava para dentro.

Às vezes levava outro brinquedo até a porta, mas não atravessava com ele.

Nenhum substituía aquele.

Nenhum tinha o mesmo peso.

As crianças começaram a falar de Bella com menos medo.

Meu filho perguntava se ela estava dormindo no jardim.

Minha filha dizia que Buddy sabia onde ela estava, e dessa vez ninguém tentava transformar aquela certeza em explicação científica.

Havia coisas que não precisavam ser diminuídas para caber na nossa lógica.

Uma semana depois, lavei os cobertores do cercadinho.

Dobreios devagar e guardei no armário da área de serviço.

O pote de água ficou mais alguns dias na sala, até que Marcelo o pegou e lavou em silêncio.

Quando voltou, colocou o pote de Buddy no mesmo lugar de sempre.

Buddy cheirou o espaço vazio onde ficava o pote de Bella e depois se deitou com a cabeça entre as patas.

Naquela noite, minha filha trouxe o paninho de boneca que havia colocado com Bella.

Ela tinha encontrado um pedaço igual na gaveta e quis deixar perto da janela.

Não fez discurso.

Só dobrou o pano com cuidado e colocou no parapeito.

A casa foi aprendendo a existir sem Bella.

Não rápido.

Não bonito.

Apenas aprendendo.

Buddy voltou a balançar o rabo quando Marcelo chegava.

Voltou a correr atrás da bolinha.

Voltou a derrubar um chinelo de vez em quando.

Mas nunca voltou a trazer o coelho azul para dentro.

O brinquedo permaneceu no jardim até ficar mais claro de sol, mais pesado de chuva e ainda mais torto do que antes.

Eu pensei muitas vezes em substituí-lo por outro.

Comprar um coelho novo.

Azul, limpo, inteiro.

Mas eu sabia que seria mentira.

O amor de Buddy por aquele brinquedo não estava no formato dele.

Estava no que aquele coelho tinha atravessado.

A caminha.

A sala.

O cercadinho.

A doença.

A morte.

O jardim.

Os últimos presentes raramente parecem presentes para quem está de fora.

Às vezes são apenas objetos velhos deixados num canto.

Às vezes são uma pelúcia rasgada sobre a terra.

Às vezes são o melhor que alguém tinha, oferecido a quem já não podia brincar.

Meses depois, numa manhã clara, Buddy foi até o jardim como sempre fazia.

Ele cheirou o coelho, deitou perto da terra e ficou ali por alguns minutos.

Então levantou, voltou para a sala e se deitou no lugar onde Bella costumava dormir.

Não havia tristeza grande no gesto.

Havia descanso.

Minha filha, sentada no sofá, olhou para mim e disse que talvez Bella não precisasse mais do coelho todos os dias.

Eu sentei ao lado dela.

Pela primeira vez, consegui sorrir sem sentir que estava traindo alguém.

O coelho continuou no jardim.

Buddy continuou visitando.

E eu parei de dizer que cachorros não pensam assim.

Porque, naquela casa, um cachorro jovem e saudável tinha passado os últimos dois meses de vida da nossa cadela morrendo levando a ela o melhor que possuía.

E, quando ela já não podia recebê-lo com o corpo, ele encontrou um jeito de entregar mesmo assim.

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