Na sexta-feira, os dividendos retidos por quatro anos caíram na minha conta, junto com uma notificação formal cobrando correção e prestação de contas. O dinheiro saiu do caixa que meu pai usava como se fosse particular, e a empresa sentiu o golpe na mesma semana.
Com o doutor Marcelo, aluguei um apartamento com portaria vinte e quatro horas perto da faculdade. Levei roupas, meu computador e as poucas joias que meu avô havia me dado pessoalmente.
Quando desci com uma única mala, Lívia apareceu no corredor.

— Você vai embora por minha causa? Eu posso devolver o quarto. Posso desaparecer, se isso salvar a família.
— Não precisa continuar representando — respondi. — Meus pais estão no escritório. Não existe plateia aqui.
Por um instante, a expressão delicada sumiu. Havia cálculo nos olhos dela.
Duas semanas depois, Leonardo me esperava diante do prédio, encostado em seu carro e segurando rosas brancas. Ele disse que meus pais estavam preocupados e exigiu que eu voltasse para pedir desculpas a Lívia.
— Ela não consegue comer direito desde que você saiu — afirmou. — Você precisa tranquilizá-la.
Quando tentou segurar meu braço, recuei.
— Nosso relacionamento acabou.
Leonardo riu como se eu estivesse fazendo uma ameaça infantil.
— Você vai terminar comigo porque pedi que fosse decente com uma órfã?
— Estou terminando porque você já está apaixonado por ela e ainda não teve coragem de admitir.
Ele ficou pálido, depois jogou as flores no chão.
— Se entrar nesse prédio, eu não vou atrás de você.
Passei o cartão na entrada e atravessei sem olhar para trás.
As portas se fecharam, e eu entendi que tinha acabado de cortar o último vínculo que ainda podia me puxar de volta.
Leonardo não voltou naquela noite.
Três dias depois, enviou uma mensagem dizendo que esperava que eu recuperasse a razão.
Bloqueei o número.
Meus pais tentaram ligar de telefones diferentes.
Helena deixou recados chorosos, seguidos por mensagens furiosas.
Primeiro, dizia que estava preocupada.
Depois, afirmava que eu envergonhava a família.
Augusto preferiu ameaçar.
Disse que poderia contestar a transferência das ações e provar que eu era emocionalmente incapaz de administrá-las.
O doutor Marcelo respondeu formalmente.
Ele anexou o testamento, os comprovantes da minha idade e a prestação incompleta dos dividendos.
Meu pai parou de ameaçar no mesmo dia.
Eu mudei de número e comecei a faculdade de economia.
Pela primeira vez, podia estudar sem analisar o humor da minha mãe antes de entrar em casa.
Não precisava ouvir Lívia suspirar sempre que eu passava.
Também não precisava esperar que Leonardo escolhesse meu lado.
Ele já havia escolhido.
Eu apenas tinha demorado uma vida inteira para aceitar.
O valor transferido era maior do que eu imaginava.
Meu pai havia misturado os dividendos com o capital operacional do Grupo Azevedo.
Retirar aquela quantia de uma vez prejudicou o fluxo de caixa.
Não chegou a ameaçar a empresa, mas expôs a falta de disciplina financeira de Augusto.
O doutor Marcelo apresentou um relatório detalhado.
Havia retiradas pessoais registradas como despesas estratégicas.
Havia adiantamentos nunca devolvidos.
Também existiam investimentos decididos sem aprovação adequada dos demais acionistas.
Eu poderia ter provocado uma investigação imediata.
Preferi esperar.
Meu objetivo não era destruir a empresa construída pelo meu avô.
Era impedir que meu pai continuasse tratando tudo como propriedade particular.
Passei a participar das reuniões do conselho por videoconferência.
Augusto franzia a testa sempre que meu nome aparecia na tela.
No início, os outros acionistas me tratavam como uma adolescente ressentida.
Eu não discuti com ninguém.
Li contratos, revisei números e pedi explicações objetivas.
Quando meu pai propôs uma expansão arriscada no setor de resorts, solicitei projeções independentes.
Na vida anterior, aqueles projetos haviam consumido milhões.
Eu lembrava das obras interrompidas e dos empréstimos renegociados.
Augusto chamou minha cautela de insegurança juvenil.
Apresentei os riscos, os custos de financiamento e a baixa ocupação prevista.
A proposta perdeu apoio.
Meu pai descobriu que vinte por cento podiam ser suficientes para fazer perguntas incômodas.
Enquanto isso, concentrei meus estudos em finanças e investimentos.
Usei parte dos dividendos para financiar empresas pequenas com produtos promissores.
Também comprei imóveis comerciais em regiões que ainda estavam desvalorizadas.
Minhas lembranças da outra vida mostravam quais setores cresceriam.
Ainda assim, não apostei tudo em previsões.
Contratei especialistas e exigi análises antes de cada decisão.
Um ano depois, meu patrimônio líquido quase havia triplicado.
Eu não era mais apenas a neta que herdara ações.
Tinha resultados próprios.
As notícias sobre a casa dos meus pais chegavam por conhecidos e relatórios do conselho.
Sem mim para ocupar o papel de filha ciumenta, a dinâmica começou a mudar.
A imagem de Lívia dependia de um contraste.
Ela parecia dócil quando podia apontar para minha raiva.
Comigo longe, restaram apenas seus desejos.
Primeiro, pediu roupas de marcas caras.
Depois, quis viagens, joias e um carro semelhante aos usados por colegas da escola particular.
Helena e Augusto aceitaram tudo.
Cada presente confirmava a história de que haviam resgatado uma jovem injustiçada.
Menos de três meses após nosso término, Leonardo e Lívia assumiram o relacionamento.
Publicaram fotos sorrindo em eventos e apresentaram o romance como algo inevitável.
Segundo eles, a crise familiar os havia aproximado.
A família Valença, porém, não recebeu Lívia com entusiasmo.
Eles haviam aceitado meu antigo compromisso porque eu possuía participação no Grupo Azevedo.
Lívia não tinha patrimônio próprio.
A adoção também era recente.
Os Valença passaram a tratá-la como uma candidata sem posição suficiente para o casamento.
Meus pais decidiram compensar essa resistência com dinheiro.
Compraram joias, um apartamento e outros bens destinados ao futuro casal.
Augusto também investiu recursos pessoais em uma subsidiária deficitária do Grupo Valença.
A operação não tinha lógica econômica.
Servia apenas para provar que Lívia chegaria ao casamento com apoio financeiro.
Quando o dinheiro pessoal começou a faltar, meu pai levou a ideia ao conselho do Grupo Azevedo.
Chamou a operação de parceria estratégica.
O material apresentado omitia dívidas importantes da subsidiária.
Eu pedi a palavra.
— A empresa registra prejuízo há três trimestres consecutivos — expliquei. — O nível de endividamento torna o investimento injustificável.
Augusto me interrompeu.
— Você não compreende os benefícios de longo prazo desta união comercial.
— Compreendo que pretende usar dinheiro dos acionistas para sustentar o casamento de sua filha adotiva.
Alguns conselheiros baixaram os olhos.
Outros começaram a revisar os documentos.
Números não se comovem.
Mostrei as obrigações vencidas, os contratos problemáticos e a ausência de garantias suficientes.
— Como acionista, voto contra o uso de recursos corporativos para esse resgate pessoal.
O pedido foi rejeitado.
Meu pai encerrou a reunião com o rosto vermelho.
Helena me telefonou naquela noite.
— Você humilhou seu pai diante de todos.
— Ele apresentou uma operação ruim diante de todos.
— Lívia só está tentando construir uma família.
— Então vocês podem ajudá-la com o dinheiro de vocês.
Minha mãe desligou.
Foi exatamente o que fizeram.
Augusto e Helena drenaram as reservas pessoais.
Depois, ofereceram a casa do condomínio como garantia para empréstimos privados.
Também aceitaram juros altos para manter o padrão de Lívia e conquistar a aprovação dos Valença.
Eu acompanhei tudo pelos registros financeiros disponíveis ao conselho.
Meu pai ainda acreditava que algum novo negócio resolveria o problema antes dos vencimentos.
Ele repetia a mesma estratégia.
Assumia outra obrigação para esconder a anterior.
Dois anos depois, eu estava em uma sala reservada de um restaurante sofisticado.
Acabara de concluir uma negociação com o presidente de uma empresa de tecnologia que eu financiara no início.
A companhia havia aberto capital.
Minha participação agora valia mais que todo o patrimônio pessoal do meu pai.
Quando o executivo saiu, minha mãe entrou.
Helena ainda usava roupas elegantes, mas sua postura havia mudado.
Os ombros estavam tensos.
As marcas ao redor da boca denunciavam meses sem descanso.
Lívia veio atrás dela.
Usava diamantes, carregava uma bolsa caríssima e mantinha o queixo erguido.
Apesar da aparência impecável, seus olhos estavam inquietos.
— Como vocês me encontraram? — perguntei.
Helena segurou o encosto de uma cadeira.
— Precisamos conversar.
— Você tem cinco minutos.
Ela se sentou.
Lívia permaneceu em pé.
— A empresa está enfrentando uma crise de liquidez — disse minha mãe. — Os empréstimos privados vencem no próximo mês.
— A empresa ou vocês?
Helena hesitou.
— As garantias estão ligadas às nossas ações e à casa.
— Então a dívida é pessoal.
— Se houver inadimplência, seu pai perderá o controle do grupo.
Eu encostei as costas na cadeira.
Na primeira vida, teria feito qualquer coisa para ouvir minha mãe pedir ajuda.
Agora, apenas queria entender o tamanho do problema.
— Quanto precisam?
Ela informou o valor.
Era enorme.
Mesmo assim, eu poderia pagá-lo sem comprometer meus investimentos principais.
Helena percebeu minha reação.
— Você tem o capital, Camila. Pode garantir o empréstimo ou comprar uma parte das ações por um valor acima do mercado.
— Vocês gastaram as reservas financiando Lívia e o casamento dela.
— Não reduza tudo a isso.
— Vocês investiram em uma subsidiária insolvente para agradar aos Valença.
— Era importante para o futuro da família.
— Da família de quem?
Minha mãe começou a chorar.
— É o trabalho da vida do seu pai. Também é seu legado.
— Meu legado estava nas ações que vocês tentaram chamar de presente.
Lívia avançou até a mesa.
— Eles criaram você. Como pode castigá-los só porque sempre teve ciúme de mim?
A voz doce havia desaparecido.
Agora havia raiva.
— Eu posso ir embora — continuou. — Posso devolver tudo, caso seja necessário.
Era a mesma frase usada desde nossa adolescência.
Desta vez, decidi aceitar.
— Devolva.
Lívia piscou.
— O quê?
— A bolsa que você está segurando custou cerca de quarenta mil reais. Os diamantes valem aproximadamente oitenta mil.
Ela segurou a bolsa contra o corpo.
— Isso não resolveria toda a dívida.
— Venda também o carro, o apartamento e os bens destinados ao casamento.
Helena observou a filha adotiva.
Lívia respirou mais rápido.
— A família de Leonardo cancelaria tudo se eu aparecesse sem patrimônio.
— Você disse que devolveria qualquer coisa para salvar meus pais.
— Não posso destruir meu futuro.
— Mas pode exigir que eu pague para preservá-lo.
O rosto de Helena perdeu a cor.
Pela primeira vez, ela olhava para Lívia sem o filtro da piedade.
— Você não venderia as joias? — perguntou minha mãe.
Lívia se virou para ela.
— Vocês prometeram que eu nunca mais passaria necessidade.
— Estamos prestes a perder a casa.
— Isso não é culpa minha.
A resposta caiu entre as duas.
Durante anos, meus pais disseram que tudo era culpa minha.
Agora, a filha que escolheram se recusava a dividir qualquer responsabilidade.
Helena me encarou novamente.
— Camila, por favor. Nós erramos.
Não respondi.
— Erramos sobre o aniversário, sobre seu quarto e sobre tantas outras coisas.
Sua voz falhou.
— Você é nossa filha. Volte para casa.
Aquela era a desculpa que eu havia esperado até morrer.
Não trouxe alívio.
Também não trouxe raiva.
Chegou tarde demais para encontrar a menina que precisava dela.
— Eu não tenho uma casa com vocês.
Minha mãe cobriu a boca.
— Então você vai deixar seu pai perder tudo?
— Não.
Helena ergueu os olhos com esperança.
Abri uma pasta e coloquei uma proposta sobre a mesa.
— Minha empresa comprará as ações restantes de vocês pelo valor de mercado.
Ela começou a ler.
— Isso pagará as dívidas pessoais — expliquei. — Vocês manterão dinheiro suficiente para viver confortavelmente.
— Seu pai perderá o controle do grupo.
— Sim.
— Você quer tomar a empresa dele.
— Quero impedir que ele a destrua.
Lívia se inclinou para observar o documento.
— E o meu casamento?
Minha mãe virou o rosto lentamente.
A pergunta revelou mais do que qualquer acusação minha conseguiria revelar.
— Estamos falando da sobrevivência da família — disse Helena.
— Eu também faço parte da família — respondeu Lívia. — Vocês prometeram garantir meu futuro.
Fechei minha bolsa e me levantei.
— Esta é minha única oferta.
Helena segurou meu pulso.
— Dê-nos mais tempo.
— O vencimento é no próximo mês. Tempo não é algo que vocês ainda possuem.
Ela soltou minha mão.
Antes de sair, olhei para Lívia.
A máscara frágil havia desaparecido por completo.
— Fique com ela, mãe — falei. — Foi a escolha de vocês.
A negociação terminou duas semanas depois.
Augusto tentou encontrar outro investidor, mas ninguém aceitou assumir as dívidas sem garantias adicionais.
Os credores ameaçaram executar a casa e as ações oferecidas como garantia.
Meus pais aceitaram minha proposta.
Minha empresa comprou a participação deles pelo valor de mercado.
Eu me tornei acionista majoritária do Grupo Azevedo.
Na primeira reunião após a transferência, Augusto apareceu diante do conselho com uma pasta vazia.
Ele declarou que deixaria o cargo de presidente.
Não olhou para mim durante o discurso.
O conselho nomeou uma executiva experiente para conduzir a operação diária.
Eu permaneci na presidência do conselho e preservei a empresa do meu avô.
Meus pais venderam a casa do condomínio.
Mudaram-se para um apartamento menor, porém confortável.
Ainda possuíam mais recursos que a maioria das pessoas.
O que perderam foi a capacidade de gastar sem limites.
A reação dos Valença veio logo depois.
Quando descobriram que Augusto não controlava mais o grupo, exigiram o cancelamento do casamento.
Leonardo tentou resistir durante alguns dias.
Depois, encerrou o noivado alegando incompatibilidade.
Lívia culpou meus pais.
Disse que eles haviam prometido transformá-la em herdeira.
Quebrou objetos, exigiu dinheiro e ameaçou ir embora.
Helena tentou lembrá-la de que sempre fora tratada como filha.
— Filha de quê? — Lívia respondeu. — Vocês não têm mais nada.
A frase chegou até mim por uma conhecida da família.
Não comemorei.
Meus pais haviam recebido exatamente o que pediram.
Uma filha que media amor pelo que podia receber.
Leonardo ainda tentou me procurar meses depois.
Enviou um e-mail dizendo que finalmente compreendia minhas suspeitas.
Também afirmou que tínhamos sido vítimas das manipulações de Lívia.
Apaguei sem responder.
Ele não fora vítima quando exigiu que eu pedisse desculpas.
Fizera uma escolha consciente porque acreditava que eu sempre estaria disponível.
Um mês após assumir o controle do grupo, visitei o cemitério onde meu avô estava enterrado.
Levei lírios brancos e os coloquei diante da lápide.
O doutor Marcelo havia me entregado a pasta original do testamento naquela manhã.
Ela estava comigo.
— Consegui, vô — falei. — A empresa está segura.
Passei os dedos sobre o nome gravado na pedra.
Na outra vida, eu havia perseguido o amor de quem me rejeitava.
Por isso, não percebi a proteção de quem realmente havia pensado no meu futuro.
Meu avô não podia obrigar meus pais a me amar.
Ele podia garantir que eu não dependeria desse amor para sobreviver.
O telefone vibrou.
Minha assistente confirmava uma viagem para um encontro internacional de investimentos em tecnologia sustentável.
Guardei o aparelho e fiquei mais alguns minutos diante da lápide.
Não sentia vontade de voltar para a antiga casa.
Não queria vingança contra Lívia.
Também não esperava que Helena ou Augusto finalmente compreendessem tudo.
A vida deles já não comandava a minha.
Entrei no carro com a pasta do meu avô sobre o banco ao lado.
Na primeira vida, aquele documento permaneceu esquecido enquanto eu implorava por migalhas.
Agora, ele não era uma arma nem um prêmio.
Era apenas a prova de que, desta vez, eu havia escolhido a mim mesma.