Renato ligou mais três vezes naquela madrugada.
Eu não atendi.
No banco traseiro do carro, a caminho de Congonhas, fiquei olhando São Paulo desaparecer pela janela molhada. Minha mala estava no porta-malas. Minha GUIA carimbada estava dentro da bolsa. Meu coração, pela primeira vez em anos, não estava correndo atrás dele.

Minha mãe, Helena Lacerda, me esperava no embarque com óculos escuros e um copo de café.
“Você tem certeza?”
“Tenho.”
Ela não sorriu de imediato. Minha mãe era boa em medir terremotos antes de comemorar qualquer coisa.
“Então vá. E não olhe para trás só porque alguém gritou seu nome.”
No portão, meu celular vibrou de novo. Era Davi.
Renato pegou o telefone dele e falou antes que eu dissesse alô.
“Beatriz, que turma você pegou? Eu fui no Horizonte e ninguém sabe de você. Para de fazer isso comigo.”
O comigo quase me fez rir.
“Eu fiz exatamente o que você queria, Renato. Saí da sua vida.”
“Não era para ser assim.”
“Era para ser como? Eu sozinha, te esperando aparecer em dois meses?”
Ele ficou em silêncio.
Esse silêncio confirmou mais do que qualquer confissão.
Quando chamaram meu voo, desliguei. Tirei o chip do aparelho e entreguei para minha mãe.
“Cancela essa linha.”
Ela guardou o chip como se fosse uma prova.
Em Florianópolis, ninguém me conhecia como a sombra do Renato Paiva.
No Colégio Internacional Atlântico, eu era só Beatriz Lacerda. Não era a garota que fazia resumo para ele. Não era a amiga grudenta. Não era o escudo emocional de um menino rico demais para ser sincero e fraco demais para assumir a própria covardia.
Nos primeiros dias, chorei no banheiro do dormitório.
Depois, comecei a respirar.
As aulas eram puxadas. A coordenadora falava de vestibular internacional, olimpíada acadêmica e projetos sociais com a mesma naturalidade com que o Santa Helena falava de festa de formatura.
Conheci Caio Rossi numa simulação de assembleia estudantil.
Ele discordou de mim na frente de todo mundo.
Eu gostei dele por isso.
“Você está acostumada a vencer pelo sobrenome”, ele disse depois.
“E você está acostumado a provocar para parecer interessante.”
Caio riu.
“Então estamos empatados.”
Enquanto isso, em São Paulo, Renato descobria o peso da minha ausência.
Ele apareceu no meu prédio antigo durante uma semana. O porteiro não deixava subir. Depois, soube que tentou entrar usando a senha velha e ficou parado diante da porta, encarando o teclado vermelho.
Meu apartamento já estava vazio.
Eu tinha doado os móveis.
A imobiliária colocou uma placa discreta na janela.
Renato entendeu que eu não tinha mudado de escola.
Eu tinha removido meu endereço da vida dele.
Minha mãe me ligou numa terça, durante o almoço.
“Os Paiva pediram uma reunião com seu pai.”
“Por quê?”
“Querem usar a amizade de vocês para suavizar uma renegociação. A empresa deles está apertada.”
Eu respirei devagar.
“Diga ao meu pai para tratar como qualquer outro devedor.”
Houve uma pausa.
Depois minha mãe soltou uma risada baixa.
“Finalmente.”
Naquela semana, recebi um vídeo de uma colega antiga.
Renato estava na cantina do Santa Helena, cabelo bagunçado, camisa amassada. Ester reclamava que o salgado estava frio. Ele respondeu alto demais.
“Então esquenta você. A Bea costumava…”
Ele parou no meio da frase.
A mesa inteira ficou quieta.
Apaguei o vídeo.
Não doeu como eu achei que doeria.
Também não deu prazer.
Só pareceu pequeno.
Dois anos passaram.
Entrei na FGV em São Paulo, mas voltei diferente. Morei sozinha, trabalhei como trainee no Grupo Lacerda e aprendi a ler contrato antes de ler expressão facial.
Caio veio para a mesma faculdade.
Ele não me seguiu.
Ele caminhou ao lado.
A diferença parecia simples. Na verdade, era tudo.
Amor não é ansiedade; é paz com testemunhas.
No quinto ano depois da minha saída, o Grupo Lacerda completou cinquenta anos.
O baile aconteceu no hotel mais antigo da região da Paulista. Havia lírios brancos nas mesas, música ao vivo e empresários que sorriam como se cada aperto de mão tivesse uma cláusula escondida.
Eu entraria oficialmente como sucessora da presidência.
Caio ajustou a abotoadura no espelho do quarto.
“Pronta?”
“Faz tempo.”
Usei um vestido verde, simples demais para ser pedido de atenção e caro demais para ser confundido com acaso.
Quando cheguei, os flashes abriram caminho.
Cumprimentei conselheiros, investidores, antigos professores. Minha mãe me beijou no rosto. Meu pai apertou minha mão como se eu fosse uma sócia, não uma filha.
Então vi Renato.
Ele estava perto do buffet, com um terno que não assentava nos ombros. Ester estava ao lado dele, usando um vestido parecido com um modelo meu que tinha saído numa revista.
Renato me viu e deixou a taça escorregar.
O vidro quebrou nos sapatos dele.
Eu continuei andando até o palco.
Depois do discurso, ele me esperou na entrada da área reservada.
“Bea.”
A voz dele tinha perdido a arrogância de sala reservada.
“Beatriz”, corrigi.
Caio ficou ao meu lado, calmo.
Renato olhou para ele com desprezo cansado.
“Isso é entre nós.”
“Não existe nós”, eu disse.
Ester apertou o braço dele.
“Nós vamos casar no ano que vem”, ela falou. “Queríamos fazer as pazes.”
Olhei para as mãos dela. Não havia aliança.
“Casar com orçamento ou com patrocinador?”
Renato empalideceu.
“Você acha que tudo é dinheiro?”
“Quando a pessoa está afundando, geralmente é.”
Ele se afastou naquela hora, mas voltou na varanda minutos depois.
Caio tinha ido buscar água. Eu sabia que ele estava perto o bastante para ouvir, se fosse necessário.
Renato veio rápido.
“Eu terminei com a Ester.”
Olhei para ele.
“Parabéns pela falta de caráter em tempo real.”
“Foi por você. Sempre foi você. Eu era idiota. Eu tive medo. Mas eu te amo.”
A palavra amor soou estranha na boca dele.
“Você ama a menina que facilitava sua vida”, eu disse. “Essa menina não existe mais.”
“Eu posso aprender.”
“Você teve dez anos.”
A porta da varanda abriu.
Ester entrou chorando, mas dessa vez não parecia frágil. Parecia furiosa.
“Conta para ela”, Ester disse.
Renato virou de costas.
“Cala a boca.”
“Não. Cinco anos eu aguentei você comparando tudo comigo e com ela. Cinco anos ouvindo que a Beatriz teria resolvido, que a Beatriz entenderia, que a Beatriz teria dinheiro.”
Ela apontou para mim.
“Ele não fingiu bullying só para te afastar. Ele devia dinheiro para alunos mais velhos por aposta online. Precisava sair do Santa Helena sem parecer covarde. Você virou a desculpa perfeita.”
A varanda ficou fria.
Renato não negou.
Aquele foi o último fio cortado.
“É verdade?”
Ele olhou para o chão.
“Eu ia pagar.”
“Com o quê?”
Ester riu sem alegria.
“Com seu nome. Ele tentou usar mensagens antigas de vocês para convencer credores de que os Lacerda cobririam a dívida.”
Caio apareceu ao meu lado com um copo de água.
“Quer que eu chame a segurança?”
Peguei o copo.
“Chame a segurança. Depois ligue para o jurídico. Se a família Paiva usou meu nome para conseguir crédito, quero uma investigação por fraude amanhã cedo.”
Renato deu um passo para trás.
“Bea, por favor. Você vai me destruir.”
“Não”, eu disse. “Eu só parei de te proteger.”
Os seguranças o levaram pela saída lateral.
Não houve gritaria grande.
Houve coisa pior para ele.
Houve silêncio.
Na semana seguinte, a auditoria encontrou empréstimos estranhos, contratos cruzados e garantias que não existiam. O Grupo Paiva entrou em recuperação. Renato virou manchete em sites de negócios que ele antes fingia não ler.
Ester vendeu entrevistas por alguns meses.
Depois sumiu.
Eu não acompanhei.
Um ano depois, saí do prédio da empresa numa tarde de chuva fina. Caio me esperava com um guarda-chuva na calçada da Faria Lima.
Um entregador passou apressado e esbarrou no meu ombro.
Caio segurou minha cintura.
“Cuidado.”
O homem levantou o rosto.
Era Renato.
Os olhos dele estavam fundos. A barba malfeita escondia pouco. Por um segundo, vi que ele me reconheceu. Também vi que olhou para minha aliança, para Caio deixando o próprio ombro molhar para me cobrir, para o segurança parado perto do carro.
Renato abriu a boca.
Nada saiu.
Então abaixou a cabeça e foi embora pela chuva.
Caio perguntou:
“Quem era?”
Olhei para a rua brilhando de água.
“Ninguém.”
Entrei no carro.
A porta fechou com um som firme.
“Só alguém que eu conheci.”