Ela Fingiu um Empurrão, Mas a Sogra Tinha Seis Câmeras Ligadas-Neyney

A foto do mapa de lugares alterado mudou a pergunta. Mariana não estava apenas mentindo sobre o vinho; ela vinha preparando a sala para me transformar na esposa ciumenta.

Clara abriu uma conversa que Mariana enviara a vários parentes. Na tela, apareciam frases dizendo que ela conhecia Rafael melhor, que algumas mulheres eram esposas e outras eram lar.

Depois surgiu minha resposta completa: — Fique longe de Rafael se sua intenção é desrespeitar nosso casamento.

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Mariana havia recortado tudo e mostrado apenas quatro palavras: “Fique longe de Rafael”.

— Recortar uma conversa não transforma mentira em verdade — eu disse.

Rafael apontou para o celular dela.

— Essa é a conversa inteira?

Mariana apertou o aparelho.

— Era o suficiente.

— Isso significa não — disse Clara.

Sem saída, Mariana reproduziu um áudio de Rafael dizendo que sentia falta de como as coisas eram antigamente.

Ela encerrou a gravação nessa frase.

Clara mostrou o vídeo completo. Rafael estava num evento beneficente, cercado por seis amigos, falando diante de doze pessoas.

Ele dizia que a vida mudava, que os amigos precisavam respeitar as escolhas adultas e concluía: — Para mim, essa escolha é Helena. Ela é a vida que construí.

Mariana recuou, encarou Rafael e cambaleou de quase dois metros de distância diretamente na direção dele.

Rafael apenas deu um passo para o lado.

Augusto correu para salvar a bandeja de pudim, enquanto Mariana caiu inteira sobre o sofá.

— Você caiu na minha direção de quase dois metros — disse Rafael. — Isso não foi um acidente. Foi um trajeto.

Clara exibiu outro ângulo. Mariana olhava para Rafael, conferia minha posição e preparava a queda antes de se lançar.

Sônia pegou novamente o controle.

— Agora que confirmamos duas encenações na mesma noite, talvez seja hora de revisar quantas vezes isso já aconteceu.

Clara abriu o notebook sobre o aparador.

Mariana se levantou do sofá depressa demais para alguém que dizia ter torcido o tornozelo.

— Vocês fizeram uma apresentação sobre mim?

Sônia pareceu sinceramente ofendida.

— Não, querida. Você produziu o conteúdo. Clara apenas organizou o arquivo.

A primeira página mostrava três episódios de lágrimas sem lágrimas.

Havia uma fotografia de Mariana pressionando um lenço sob os olhos durante uma confraternização do trabalho de Rafael.

Abaixo, Clara escrevera apenas a data e o que acontecera antes.

Mariana havia pedido que Rafael a acompanhasse até o carro porque se sentia tonta.

Quando ele chamou outra pessoa para acompanhá-la, a tontura desapareceu.

A página seguinte registrava cinco alterações de lugares em eventos da família.

Uma delas acontecera no aniversário de Augusto.

Mariana retirara meu nome da cadeira ao lado de Rafael e alegara que os cartões tinham caído.

Outra ocorrera durante um almoço de domingo.

Ela dissera que precisava sentar perto dele porque somente Rafael conhecia sua alergia.

Clara verificara o cardápio depois.

O ingrediente citado por Mariana nem sequer estava presente.

— Isso é perseguição — Mariana disse.

Rafael cruzou os braços.

— Perseguição seria Helena ter que responder sozinha a cada armadilha sua.

Ele olhou para a tela.

— Isto é revisão.

A terceira página mostrava duas conversas recortadas e uma tentativa de áudio editado.

A quarta registrava quatro machucados repentinos.

Em todos, Mariana olhava primeiro para Rafael.

Somente depois dizia que havia se ferido.

Em um vídeo, ela esbarrou numa cadeira e esperou três segundos.

Quando percebeu que Rafael não olhava, esbarrou novamente e soltou um gemido mais alto.

Augusto apoiou os cotovelos na mesa.

— Ela repetiu a batida porque a primeira não teve plateia?

Clara assentiu.

— A cadeira sofreu mais do que ela.

Mariana respirava depressa.

Sua expressão doce já não voltava com a mesma facilidade.

A página seguinte registrava onze ocasiões em que ela publicara lembranças da infância pouco antes de eventos importantes para mim e Rafael.

No dia em que anunciamos nossa mudança, Mariana enviou ao grupo uma foto deles aos oito anos.

No nosso aniversário de casamento, publicou uma imagem dos dois numa festa escolar.

Quando recebi uma promoção, contou aos parentes sobre o primeiro trabalho de Rafael.

Ela sempre fazia parecer coincidência.

As datas mostravam um padrão.

Memória não é escritura de posse.

Mariana, porém, vinha usando o passado como se fosse uma chave permanente.

Clara passou para os registros de chamadas.

Nove crises emocionais apareciam nos últimos quatro meses.

Rafael atendera três delas.

Depois, começara a guardar horários e mensagens.

Olhei para ele.

— Você estava documentando tudo isso?

Rafael fez uma expressão cansada.

— No começo, achei que uma conversa direta seria suficiente.

— E não foi — completei.

— Ela dizia que eu estava sendo influenciado por você.

Ele manteve os olhos em Mariana.

— Então parei de discutir versões e comecei a registrar fatos.

Mariana bateu a mão na lateral do vestido molhado.

— Eu ligava porque confiava em você.

— Você ligava até eu atender — respondeu Rafael. — Depois dizia aos outros que eu procurava você.

Clara abriu os registros das dezesseis mensagens sobre a lâmpada queimada.

A primeira pedia ajuda.

A segunda dizia que Mariana estava com medo.

Na quinta, ela perguntava se Rafael ainda se importava.

Na décima, dizia que a escuridão a fazia lembrar da infância.

Na décima sexta, ameaçava sair sozinha para procurar um eletricista.

Rafael respondera apenas: “Você está segura?”

Mariana havia enviado essa frase isolada para mim.

Ela cortara todas as mensagens anteriores.

— Você queria que Helena acreditasse que eu estava cuidando de você em segredo — Rafael disse.

— Eu estava assustada.

— Você tinha três luminárias acesas — afirmou Clara. — Apareciam na foto que você mesma mandou.

Alguns parentes desviaram os olhos.

Eles começavam a entender quantas vezes haviam recebido apenas metade de uma história.

Tia Lúcia ergueu a mão.

— Mariana, você me disse que Helena proibiu sua presença num almoço.

Mariana olhou para ela.

— Foi assim que eu me senti.

— Eu perguntei sobre um fato — disse Lúcia. — Não sobre como você decidiu descrevê-lo.

Todos olharam para mim.

Eu me lembrei daquele almoço.

Mariana avisara duas horas antes que levaria quatro amigos.

Eu expliquei que o salão reservado não comportava mais pessoas.

Ela compareceu sozinha, sentou-se perto da porta e disse que não queria incomodar.

Depois contou que quase fora impedida de entrar.

Lúcia baixou a cabeça.

— Helena, eu deveria ter perguntado diretamente a você.

— Deveria — respondi.

Aceitei o pedido de desculpas, mas não retirei o peso dele.

Durante meses, eu precisara entrar em cada encontro sem saber qual versão de mim já estava circulando.

Mariana apontou para a televisão.

— Vocês estão agindo como se Helena fosse perfeita.

Eu ri, sem humor.

— Ninguém disse isso.

Rafael virou-se para mim.

— Ela esqueceu meu café da manhã de aniversário no ano passado.

— Eu estava com febre — expliquei.

— Depois pediu almoço e escreveu “desculpa” numa panqueca.

Augusto assentiu com seriedade.

— Isso, sim, parece casamento.

Sônia olhou para Mariana.

— Helena não precisa ser perfeita. Ela só precisa não inventar crimes contra si mesma durante o jantar.

Mariana abriu a boca, mas um jovem garçom apareceu na entrada da sala.

Vinícius carregava uma bandeja com pequenas tigelas de molho de tomate.

Ele parou assim que percebeu que todos o observavam.

Sônia estreitou os olhos.

— Vinícius, há alguma coisa que você deseja contar antes que alguém escorregue?

O rosto dele ficou vermelho.

Mariana virou-se depressa.

— Não diga nada.

A frase saiu alta e agressiva.

Não combinava com a mulher que alegava estar sendo perseguida.

Vinícius colocou a bandeja no aparador.

As mãos dele tremiam.

— Desculpe, dona Sônia. Ela disse que era uma brincadeira sem importância.

Rafael ficou completamente imóvel.

— Que brincadeira?

Vinícius olhou para mim.

— Mariana pediu que eu esbarrasse na senhora Helena durante a sobremesa.

Ninguém respirou.

— Depois eu deveria dizer que ela se moveu de repente — continuou ele. — Assim, o molho cairia nela e pareceria culpa dela.

Mariana levantou a voz.

— Eu nunca falei desse jeito.

Vinícius encolheu os ombros.

— A senhora me deu duzentos reais e disse para eu esperar o pudim chegar.

O valor não era enorme.

Era pior por ser pequeno o bastante para mostrar como Mariana tratava outras pessoas como peças descartáveis.

Olhei para as tigelas vermelhas.

— Engraçado para quem?

Mariana não respondeu.

Sônia inspirou lentamente.

— Nesta casa, temperamos comida. Não fabricamos provas.

Vinícius parecia prestes a chorar.

— Eu não sabia que havia outras coisas acontecendo.

Sônia suavizou um pouco a expressão.

— Você errou ao aceitar. Agora fez certo ao contar.

Ela apontou para a porta.

— Vá à cozinha e informe ao responsável. Os duzentos reais serão devolvidos depois do registro do ocorrido.

Vinícius assentiu e saiu.

Mariana tentou acompanhá-lo.

Clara falou antes que ela desse o segundo passo.

— Ela está digitando.

Mariana congelou.

Seu celular estava inclinado junto ao vestido.

Os polegares se moviam rapidamente.

— Agora você está olhando minha tela? — ela perguntou.

— Você está escrevendo no grupo da família — respondeu Clara. — Todos nós estamos vendo o aviso de digitação.

Mariana apertou o telefone contra o peito.

Clara já havia aberto o grupo na televisão.

A mensagem ainda não fora enviada, mas aparecia no campo compartilhado do aparelho conectado.

Mariana escrevera que tentara ser gentil.

Dizia que eu colocara a família inteira contra ela.

Afirmava que fora humilhada por possuir um coração bondoso.

Terminava dizendo que certas esposas temiam laços de infância.

Rafael leu em silêncio.

— Você pretendia publicar isso antes ou depois de assistirmos ao vinho em câmera lenta?

— Eu estava desabafando.

— Você estava preparando a próxima versão — eu disse.

Sônia pegou o próprio celular.

Ela escreveu uma mensagem breve no grupo familiar.

Informou que o incidente fora revisto pelas câmeras.

Esclareceu que eu não empurrara Mariana.

Acrescentou que qualquer nova afirmação deveria vir acompanhada de provas completas.

As respostas chegaram rapidamente.

Um primo pediu desculpas por ter acreditado em comentários antigos.

Uma tia perguntou se a regra também valia para mudanças de lugar.

Outra quis saber se o ângulo do lustre poderia ser usado como material educativo.

Augusto leu as mensagens sobre o ombro de Sônia.

— A família está lidando melhor com isso do que eu esperava.

Clara mostrou o celular.

— Alguém já transformou a frase da mamãe numa figurinha.

Sônia franziu a testa.

— Provas não funcionam assim.

— Agora funcionam — respondeu Augusto.

Eu comecei a rir.

Não consegui evitar.

Depois de meses engolindo comentários pequenos, falsas urgências e silêncios calculados, o absurdo finalmente rompeu a tensão.

Mariana me encarou.

— Você está rindo enquanto me humilham?

Limpei o canto do olho.

— Estou rindo porque você derramou vinho em si mesma diante de seis câmeras.

— Helena não está humilhando você — disse Rafael. — Ela apenas parou de limpar a bagunça que você cria.

Mariana mudou de estratégia novamente.

— Se ela confiasse em você, não sentiria prazer em me ver sofrer.

Rafael não hesitou.

— Helena não criou esta noite.

Ele apontou para a televisão, o molho e os cartões trocados.

— Você criou cada parte dela.

Mariana olhou para ele com raiva aberta.

A voz frágil desapareceu.

— Você acha que ela venceu porque você a defendeu hoje?

Então se voltou para mim.

— Eu conheci Rafael primeiro.

A sala ficou quieta.

— Conheço os medos dele, a comida favorita, os sonhos antigos e tudo o que aconteceu antes de você aparecer.

A frase encontrou exatamente o ponto que Mariana vinha pressionando havia meses.

Eu nunca pensei que Rafael a amasse.

Mesmo assim, ela conhecia anos nos quais eu não existia.

Sabia histórias que eu ouviria sempre como visitante.

Por um instante, senti novamente o cansaço de entrar numa sala e precisar provar que pertencia à vida do meu próprio marido.

Rafael encontrou minha mão.

Ele não apertou com força.

Apenas a segurou.

— Você conheceu o menino que achava que dinossauro era profissão — disse ele.

Augusto levantou um dedo.

— Ainda considero uma carreira respeitável.

Algumas pessoas riram.

Rafael não desviou os olhos de Mariana.

— Helena conhece o homem que paga contas, dobra roupa e escolheu a esposa cinco vezes somente nesta noite.

Mariana ficou vermelha.

— Você mudou depois que se casou.

— Sim — respondeu Rafael. — Eu me tornei marido. Essa era a ideia.

Sônia ergueu o copo de água.

— Criei um filho. Não criei um namorado comunitário.

— Propriedade compartilhada serve para casa de praia — acrescentou Augusto. — Não para filhos adultos.

Clara cobriu a boca para esconder o riso.

Mariana se voltou para os parentes.

— Vocês estão todos contra mim.

— Não — disse Rafael. — Estamos verificando suas afirmações.

A diferença era simples, mas destruía o método dela.

Sempre que alguém questionava uma versão, Mariana chamava aquilo de crueldade.

Quando alguém estabelecia limite, ela dizia que estava sendo excluída.

Diante de provas, porém, não havia neblina suficiente para esconder o padrão.

Clara abriu outra pasta.

Ela continha mensagens enviadas por Mariana a doze parentes antes daquele jantar.

Mariana dizia que eu não gostava dela.

Afirmava que Rafael parecia preso no casamento.

Escrevia que sentia falta do antigo Rafael.

Também dizia temer que eu o obrigasse a cortar contato.

Tia Lúcia cruzou os braços.

— Você não estava pedindo apoio. Estava preparando um júri.

Mariana tentou corrigir.

— Eu só estava falando dos meus sentimentos.

Sônia respondeu antes de qualquer pessoa.

— Sentimento fica num diário. Estratégia é o que se distribui a doze parentes antes do jantar.

Mariana agarrou a bolsa.

— Eu amo esta família.

— Por isso tivemos tanta paciência — disse Sônia. — Esperávamos que você aprendesse a respeitar quem fazia parte dela.

— Eu faço parte dela.

Sônia sustentou o olhar.

— Você era uma amiga recebida com carinho. Transformou esse carinho em licença para atacar minha nora.

Mariana olhou para Rafael.

Dessa vez, as lágrimas vieram de verdade.

— Você não pode me abandonar depois de tudo que vivemos quando crianças.

— Justamente por tudo que vivemos, você deveria saber que eu não aceitaria um ataque contra minha esposa.

Ele deu um passo à frente.

— Você foi minha amiga de infância.

A voz dele permaneceu baixa.

— Isso não faz de você minha esposa, minha responsabilidade ou meu quarto emocional de reserva.

Mariana esperou que alguém interrompesse.

Ninguém fez isso.

Nenhum parente ofereceu um lenço.

Ninguém pediu que Rafael a consolasse.

Ninguém me aconselhou a ser a pessoa maior.

Ela caminhou até a porta.

No limite entre a sala e a varanda, parou por alguns segundos.

Talvez esperasse ouvir o próprio nome.

Sônia apenas diminuiu o volume da televisão.

Mariana saiu.

A porta se fechou.

Augusto observou os pratos.

— Podemos finalmente servir o pudim?

A pergunta libertou a sala.

As pessoas riram alto demais, porque a tensão precisava encontrar algum lugar para sair.

O jantar continuou mais devagar.

Alguns parentes vieram falar comigo.

Outros permaneceram sentados, envergonhados pelo que haviam acreditado.

Lúcia me abraçou e repetiu que deveria ter perguntado diretamente.

Eu agradeci, mas não aliviei tudo para ela.

Rafael ficou perto sem transformar sua presença numa apresentação.

Às vezes, sua mão tocava meu ombro.

Em outros momentos, encontrava meus dedos sob a mesa.

Eram gestos pequenos, porém claros.

Depois da sobremesa, saímos para o jardim dos fundos.

A grama estava úmida, e o cheiro de jasmim vinha do muro lateral.

Pelas janelas, vimos Clara repetir a gravação para dois primos que perderam o movimento em câmera lenta.

— Eu deveria impedir — disse Rafael.

— Ela parece muito feliz.

— Criou uma pasta chamada Arquivo Mariana.

— Você está um pouco orgulhoso.

— Estou tentando não demonstrar.

Ele sorriu, mas logo ficou sério.

— Há quanto tempo isso machucava você?

Pensei em responder que estava tudo bem.

Não estava.

— Eu nunca achei que você quisesse Mariana.

Rafael esperou.

— O problema era entrar em cada reunião e imaginar o que ela tinha contado antes da minha chegada.

Ele baixou os olhos.

— Eu devia ter encerrado isso antes.

— Você nunca acreditou nela.

— Não, mas deixei a situação durar até você ficar cansada.

A resposta importou.

Um homem defensivo teria listado tudo o que fizera corretamente.

Rafael reconheceu o que eu vivera antes da defesa pública.

— Eu confiava em você — falei. — Mesmo assim, odiava sentir que precisava provar meu lugar para a sala.

Ele segurou minha mão.

— Você nunca precisou provar seu lugar para mim.

— Eu sei. Às vezes, precisava prová-lo aos outros.

Rafael olhou para a casa.

— Então, daqui para frente, a sala terá que provar que merece receber você.

A frase alcançou algo que as câmeras não podiam registrar.

Mariana nunca ameaçara realmente meu casamento.

Ela tornara o casamento cansativo ao redor das bordas.

Rafael compreendia a diferença.

— Quando você percebeu o padrão? — perguntei.

— Na primeira vez que ela disse não querer causar problema enquanto carregava um novo cartão de lugar.

Eu ri.

— Sério?

— Está bem. Foi quando ela chorou sem lágrimas e verificou se eu estava olhando.

— Isso parece mais provável.

Ele passou o braço pelos meus ombros.

— Você nunca esteve competindo com Mariana.

— Ela parecia acreditar que sim.

— A competição terminou antes que ela percebesse que havia inventado uma.

Na manhã seguinte, Mariana publicou um texto às nove horas.

Escreveu que algumas pessoas revelavam suas verdadeiras cores.

Disse que fora humilhada por ter um coração generoso.

Terminou repetindo que certas esposas temiam amizades de infância.

Às nove e dez, Clara publicou um esclarecimento discreto.

Informou que ninguém fora empurrado ou excluído.

Pediu que versões editadas dos acontecimentos deixassem de circular.

Ela não publicou as imagens.

Não precisava.

O grupo familiar já tinha recebido a mensagem de Sônia.

Pessoas próximas reconheceram a situação.

Os comentários começaram educados.

Depois apareceram perguntas sobre as seis câmeras.

Alguém escreveu que o ângulo do lustre merecia uma premiação.

Outra pessoa publicou a fotografia de uma taça e chamou aquilo de prova número um.

Mariana apagou comentários.

Outros surgiram.

Ela bloqueou as respostas, mas as pessoas começaram a comentar em suas próprias páginas.

Antes das treze horas, a publicação desapareceu.

Clara me enviou uma captura de tela.

A mensagem dela dizia apenas que a reputação de Mariana estava carregando lentamente.

Pouco depois, Mariana escreveu para Rafael.

Disse sentir falta da época em que eram crianças.

Acrescentou que ele costumava protegê-la.

Rafael colocou o celular no balcão da cozinha diante de mim.

— O que você acha que devo responder?

Li a mensagem.

— Ela ainda está usando a infância como saída de emergência.

Ele digitou lentamente.

Escreveu que protegia pessoas honestas.

Disse que Mariana tentara ferir sua esposa.

Terminou pedindo que ela não entrasse mais em contato.

Rafael me mostrou antes de enviar.

Depois, bloqueou o número.

Não houve despedida longa.

Não existiu uma conversa secreta para preservar alguma ternura escondida.

Foi apenas uma porta fechando com clareza.

Mariana procurou Clara em seguida.

Disse que não acreditava no que ela fizera.

Afirmou que as duas eram praticamente irmãs.

Clara respondeu uma única vez.

Pediu que futuras reivindicações de infância fossem enviadas com data e testemunhas.

Depois também bloqueou Mariana.

Sônia não respondeu.

Talvez aquele tenha sido o limite mais frio.

Antes do fim da tarde, o nome de Mariana desapareceu da lista de convidados da família.

Não houve anúncio.

Nenhuma pessoa fez discurso sobre expulsão.

Simplesmente deixaram de imprimir um cartão para ela.

Uma semana depois, Sônia organizou outro jantar.

Não havia Mariana, cartões trocados ou taças próximas de pulsos instáveis.

Clara colocou o controle preto ao lado do prato da mãe.

Uma pequena etiqueta dizia “PROVAS”.

Sônia fingiu não perceber.

Augusto apontou para o aparelho.

— Podemos comer normalmente pelo menos uma vez?

Sônia colocou a salada no centro da mesa.

— Podemos, desde que ninguém tente incriminar a alface.

Clara levantou o copo.

— Um brinde aos vegetais honestos.

Eu ri tanto que precisei apoiar o garfo.

Rafael estava sentado ao meu lado porque aquele era o lugar indicado em seu cartão.

Ninguém o moveu.

Lúcia guardou para mim o último pedaço de bolo.

Outros parentes perguntaram sobre meu trabalho.

Pela primeira vez em meses, eu não procurei sinais de uma história escondida nos rostos deles.

Sônia se inclinou discretamente.

— Você se comportou muito bem naquela noite.

— A senhora manejou muito bem o controle.

— Eu pratiquei.

— Acredito nisso.

Ela tocou minha mão.

— Você é minha nora, Helena. Não é uma convidada pedindo permissão para sentar ao lado do marido.

Minha garganta apertou.

— Obrigada.

Sônia desviou os olhos, desconfortável com o próprio carinho.

Então chamou a atenção de Clara por usar a figurinha das provas numa discussão sobre uma travessa emprestada.

— Ela é versátil — Clara respondeu.

Duas semanas depois, durante um almoço beneficente, uma amiga de Sônia começou uma frase dizendo que não queria causar problema.

Três pessoas olharam imediatamente para a bolsa de Sônia.

Ela parou com a xícara no ar.

— Fiquem tranquilos. O controle ficou em casa.

A mulher respirou aliviada.

Sônia completou:

— Provavelmente.

A mesa inteira riu.

A amiga explicou que o problema era apenas uma vaga de estacionamento.

Augusto inclinou-se na minha direção.

— Até o estacionamento tem testemunhas agora.

Naquele instante, percebi que as frases de Mariana haviam perdido o poder.

Antes, faziam pessoas correrem para consolá-la.

Agora, faziam todos procurar fatos.

Meses depois, fomos à festa de noivado de um primo.

Quando o vinho começou a ser servido, alguém perguntou se deveriam verificar as câmeras.

Sônia pegou sua taça com tranquilidade.

— Não precisa. Mariana não foi convidada.

A risada veio leve.

Não havia crueldade nela.

Era apenas o alívio de uma família que já não precisava caminhar ao redor de uma encenação.

Percebi que eu também não estava me preparando para nada.

Não analisava os rostos.

Não imaginava qual história chegara antes de mim.

Meu lugar já não precisava ser defendido.

Ele simplesmente existia.

Rafael apertou minha mão sob a mesa.

— Ainda está feliz por ter entrado nesta família?

Olhei para Sônia, que explicava por que câmeras eram uma escolha de estilo de vida.

Olhei para Clara, tentando convencer Augusto a permitir um vídeo de retrospectiva dos jantares.

Depois olhei para meu marido.

— Eu me casei com você. O sistema de segurança veio como benefício adicional.

Rafael riu e beijou meus dedos.

Do outro lado da mesa, alguém perguntou onde estava o controle preto.

Sônia levantou as mãos vazias.

— Não preciso mais dele em todos os jantares.

Clara pareceu surpresa.

— A senhora confia tanto assim na família?

Sônia olhou para mim.

— Agora a família aprendeu a perguntar pelas provas antes de mover a cadeira de alguém.

Mariana derramou vinho para me tirar do meu lugar.

Acabou ensinando a sala inteira a nunca mais mover minha cadeira.

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