O Salão da Escolha parecia maior na segunda vez que entrei.
Talvez fosse porque eu já sabia onde cada riso terminava.
Na primeira vida, eu caminhei até Caio com o coração aberto.

Ele recebeu minha escolha como quem recebe um objeto caro.
Durante dez anos, deixou a corte me quebrar devagar.
Quando a rainha Selma precisou de uma culpada, Caio assinou minha morte sem olhar para trás.
Depois acordei no mesmo dia.
Mesma chama branca.
Mesmo Livro de Escolha.
Mesmo príncipe sorrindo como se meu destino já coubesse na mão dele.
O rei Orlando falou do trono.
‘Escolha qualquer senhor dragão.’
Caio deu um passo mínimo, quase invisível.
A corte viu confiança.
Eu vi costume.
Na outra vida, aquele gesto dizia venha.
Nesta, eu virei o rosto.
‘Eu escolho o duque Artur Montenegro.’
O salão perdeu o ar.
Artur era o tio de Caio.
Era o dragão do norte.
Era o homem que dormia havia três anos na Fortaleza Pedra Negra.
Para a corte, ele era um cadáver nobre.
Para mim, era a única pessoa que, em outra vida, ficara entre mim e uma roda de mulheres cruéis.
Caio riu.
‘Você prefere casar com um cadáver a mim?’
Eu senti o velho medo procurar meu corpo.
Não encontrou lugar.
‘Um dragão adormecido ainda é mais quente que um príncipe que me viu morrer.’
Ninguém entendeu a vida anterior.
Mesmo assim, a frase acertou Caio no orgulho.
O sorriso morreu antes que ele pudesse escondê-lo.
A rainha Selma levantou uma sobrancelha.
Marília, a dama que sempre ria primeiro, ficou quieta.
O rei tentou ganhar tempo.
Mas o Livro de Escolha já tinha recebido minha chama.
O decreto era público.
Até um rei precisava respeitar a própria palavra.
Quatro dias depois, a carruagem subiu a Serra da Mantiqueira.
A corte mandou flores pretas e um véu pesado demais para uma noiva viva.
Também mandou uma escova de prata usada em funerais.
Vesti tudo sem reclamar.
Se queriam ver luto, eu daria luto.
Só não seria o meu.
A Fortaleza Pedra Negra parecia uma garganta fechada na montanha.
Soldados feridos me observaram do pátio.
Eles não confiavam em nada que viesse do palácio.
Eu não os culpei.
Artur estava no quarto mais alto.
A maldição marcava o peito dele como gelo escuro.
A pele estava fria.
A respiração quase não existia.
As damas cochicharam atrás de mim.
‘Duquesa cadáver.’
‘Sangue jogado fora.’
‘Viúva antes da noite.’
Ajoelhei mesmo assim.
O sacerdote perguntou se eu aceitava Artur como marido.
‘Aceito acordado, adormecido, ferido ou em chamas.’
A sala mudou.
Não virou carinho.
Virou atenção.
Aquela já era uma vitória.
Naquela noite, cortei o dedo e toquei a marca no peito dele.
A chama dentro do meu sangue acordou.
A pedra tremeu.
O coração de Artur bateu uma vez.
A dor quase me derrubou.
Entendi ali que salvar alguém também podia cobrar preço.
Mesmo assim, sussurrei perto dele.
‘Você ficou na minha frente uma vez. Agora eu fico na sua.’
Passei semanas aprendendo o norte.
Dispensei curandeiros que tremiam demais perto dos remédios.
Reabri a sala de guerra selada.
Ouvi soldados que a corte tratava como mobília quebrada.
No fim de cada tarde, bebia café coado com Mestre Rui e perguntava sobre leis antigas.
Ele nunca me chamou de vaso.
Chamou-me de senhora.
Caio ouviu os rumores.
Primeiro fingiu alívio.
Depois veio pessoalmente.
Recebi-o no salão externo.
A ala de Artur continuou fechada.
‘Você está brincando de duquesa’, ele disse.
‘Não’, respondi. ‘Estou trabalhando.’
Meu sangue alcançou o dragão dele.
Vi a reação nos olhos dourados.
Antes, eu teria confundido instinto com amor.
Desta vez, abri a janela.
‘Se minha chama incomoda, Sua Alteza pode ficar mais longe.’
Ele saiu vermelho de raiva.
Marília chegou depois.
Trouxe três damas e a velha coragem dos covardes em grupo.
Derramou vinho no meu vestido.
Puxou o véu preto no salão.
Chamou-me de vaso diante dos soldados.
Toquei o sino de guerra.
Os guardas do norte entraram como se a pedra tivesse ganhado dentes.
‘No norte, qual punição vem primeiro?’, perguntei.
O capitão se ajoelhou.
‘A escolha é sua, minha duquesa.’
Marília empalideceu.
Não mandei prendê-la.
Mandei que pagasse ouro de sangue.
Mandei que substituísse o tapete de juramento.
Mandei que se ajoelhasse no portão e pedisse desculpas com o brasão da família selado.
A crueldade gosta de plateia.
A justiça também sabe usar testemunhas.
Naquela noite, voltei ao quarto de Artur exausta.
‘Enfrentei todos hoje’, eu disse. ‘Não bem, mas melhor que antes.’
A mão dele fechou no meu pulso.
Os olhos se abriram.
Negros.
Vivos.
Cheios de prata.
‘Quem fez você acreditar que ser escolhida era uma vergonha?’
Eu quase quebrei ali.
Não por medo.
Por alívio.
Contei parte da verdade.
Falei de Selma.
Falei dos curandeiros.
Falei de Caio querendo de volta tudo que descartava.
Não falei da primeira vida.
Artur percebeu a porta fechada e não tentou arrombá-la.
‘Primeiro sobrevivemos’, ele disse.
Nos dias seguintes, a memória dele voltou em pedaços.
Neve na guerra do norte.
Uma lâmina de ferro lunar.
Um perfume caro.
A mão de um curandeiro real.
Uma voz feminina dizendo que o velho dragão precisava dormir antes que o jovem usasse a coroa.
Artur juntou tudo sem que eu empurrasse.
‘Selma.’
Foi a única palavra.
Mestre Rui confirmou o que a corte tinha escondido.
Meu sangue não era sangue de criação.
Era chama de juramento.
Acordava corações dracônicos.
Quebrava maldições.
Expunha votos falsos.
‘Você não é vaso’, ele disse. ‘Você é chama.’
Artur olhou para mim como se aquela frase fosse uma sentença contra o mundo.
‘Eles te chamaram de taça para você nunca descobrir que era o fogo.’
A primeira espiã de Selma veio disfarçada de curandeira.
Deixei entrar.
Quando ela tentou despejar veneno no remédio, Artur segurou o pulso dela.
A prata acendeu nos olhos dele.
‘Diga à minha cunhada que o cadáver lembra o cheiro dela.’
A curandeira correu.
A mensagem chegou ao palácio inteira.
Selma parou de sorrir.
Caio tentou outra forma.
No banquete imperial, pediu a anulação do casamento.
Disse que um homem adormecido não podia consentir.
Disse que minha chama era recurso da coroa.
Levantei antes que alguém me defendesse.
‘Eu não sou uma taça para voltar à mesa que me derramou.’
Caio perdeu a máscara.
‘Você pertenceu a mim primeiro.’
‘Eu pertenci a mim antes de vocês aprenderem meu nome.’
As portas se abriram.
Artur entrou apoiado numa bengala negra.
Fraco.
Pálido.
Incontestavelmente vivo.
A corte pareceu encolher.
‘Ela me escolheu enquanto eu dormia’, ele disse. ‘Imaginem o que faço agora que acordei.’
Caio ficou sem cor.
Artur não olhou para ele primeiro.
Olhou para mim.
‘Aceito minha esposa, sua chama e todos os inimigos que ela nomear.’
Foi a primeira vez que alguém me escolheu em público sem cobrar nada antes.
Selma não podia deixar aquilo ficar.
Acusou-me de prender Artur com magia proibida.
Exigiu julgamento pela chama do dragão.
Se eu mentisse, queimaria.
Se dissesse a verdade, a chama mostraria tudo.
Ela acreditava que já tinha corrompido o fogo.
Eu fui ao templo mesmo assim.
Artur quis impedir.
‘Não acordei para ver você queimar.’
‘Eu não voltei para continuar rastejando.’
Ele ficou imóvel.
Naquele instante, entendeu mais do que eu disse.
O templo estava cheio.
Casas dracônicas, sacerdotes, soldados, famílias nobres e gente do povo lotavam os bancos.
Não havia multidão sem rosto ali.
Havia testemunhas.
A chama antiga tremia no centro.
Estava pálida e doente.
Selma sorriu.
Marília segurou o próprio riso.
Caio olhava para a mãe como um homem que começa tarde demais a desconfiar do próprio trono.
Cortei a palma da mão.
Deixei a chama cair.
Por um segundo, nada aconteceu.
Selma sorriu mais.
Então o fogo se ajoelhou.
Não subiu.
Não me queimou.
Abaixou-se diante de mim como um bicho antigo reconhecendo sua dona.
A luz ficou branca.
Depois prata.
Depois mostrou a verdade.
Primeiro veio a guerra do norte.
Artur caído na neve.
Um curandeiro real inclinando-se sobre ele com maldição nas mãos.
Selma observando do cavalo.
‘Aquele dragão velho dorme antes que meu filho use a coroa.’
O templo gritou.
Depois veio Marília no corredor dos criados.
Ela pagava uma empregada para rasgar meu vestido e derramar comida em mim.
Ria antes mesmo da humilhação acontecer.
Então veio Caio.
Não desta vida.
Da outra.
Ele estava sentado à mesa, assinando minha execução.
As provas eram fracas.
A mão dele não tremeu.
‘Que o destino cuide dela’, disse a imagem.
Caio cambaleou para trás.
A mão dele bateu numa coluna.
Selma perdeu a postura.
Marília caiu de joelhos sem ordem.
A chama marcou Selma como quebradora de juramento.
A queimadura dourada apareceu no colo dela, onde joia nenhuma esconderia.
‘Fiz tudo pelo meu filho’, ela disse.
Caio recuou dela.
‘Você amaldiçoou meu tio para tomar minha coroa.’
Artur olhou para Selma sem levantar a voz.
‘Você roubou três anos de mim. Tentou roubar o nome da minha esposa. Não ficará com coroa nem misericórdia.’
Eu dei um passo à frente.
‘Você me chamou de vaso. Agora veja cada juramento deste império se esvaziar de você.’
Os guardas do juramento a levaram.
Ela perdeu o selo real.
Perdeu a autoridade da coroa.
Perdeu o apoio dos clãs.
Foi enviada ao Tribunal do Norte por traição, maldição e tentativa de assassinato.
O rei Orlando se voltou para Caio.
Meu antigo príncipe tentou dizer que não sabia.
A chama já tinha mostrado o suficiente.
Ele tinha visto.
Tinha calado.
Tinha lucrado com o silêncio.
‘Um príncipe que deixa a verdade queimar ao lado dele não herda fogo’, disse o rei.
Caio perdeu a linha de sucessão imediata.
Perdeu o estandarte dourado.
Perdeu o comando dos exércitos.
E me perdeu diante de todos que um dia juraram que eu era dele.
Marília tentou chorar.
‘Eu só seguia a moda da corte.’
‘Crueldade não é moda’, respondi. ‘É feiura com testemunhas.’
Ela abaixou a cabeça.
Eu não precisei dizer mais nada.
Depois do julgamento, minhas pernas falharam.
O sangue cobrou seu preço.
Artur me segurou antes que eu caísse.
Carregou-me diante da corte inteira.
Não como troféu.
Como promessa.
Em particular, a raiva dele apareceu.
‘Você arriscou a própria vida.’
‘Eu precisava expor Selma.’
‘Você me escolheu para sobreviver’, ele disse. ‘Vou passar a vida garantindo que não se arrependa de viver.’
Chorei de verdade pela primeira vez.
Não porque tinha perdido.
Porque alguém finalmente queria que eu continuasse aqui.
Quando a maldição quebrou por completo, Artur acordou como dragão.
As asas negras se abriram sobre a Fortaleza Pedra Negra.
A prata iluminou as nuvens da Mantiqueira.
Os soldados do norte se ajoelharam.
Eu fiquei de pé.
Sem medo.
A cabeça enorme dele baixou até minha mão aberta.
Minha chama não o enlouqueceu.
Nunca enlouqueceria.
Mestre Rui falou baixo.
‘A chama de juramento escolheu seu igual.’
Antes de partir para a fronteira, Caio pediu para me ver.
Veio sem capa de príncipe.
Sem estandarte.
Sem aquele brilho insuportável de quem nunca perdeu nada.
‘Se você tivesse me escolhido de novo, eu poderia amar você diferente.’
‘Não, Caio. Você teria me amado só depois de perder o direito de me possuir.’
‘Seu sangue ainda me chama.’
‘Então deixe chamar. Eu não respondo mais.’
Ele pediu desculpas.
Talvez fosse real.
Talvez fosse arrependimento vestido de nobreza.
Não importava.
‘Na primeira vida, eu morri esperando você se virar’, eu disse. ‘Nesta, parei de olhar.’
Fui embora antes que ele pudesse transformar minha paz em plateia.
O rei Orlando ofereceu proteção e lugar na corte.
Pedi apenas reconhecimento legal.
Não como recurso da coroa.
Não como vaso.
Como duquesa do norte e Senhora da Chama de Juramento.
Ele concedeu diante de todos.
Também decretou que nenhum senhor dragão poderia reclamar uma portadora de chama por cheiro, instinto ou força.
Só a escolha valeria.
Eu não tinha apenas sobrevivido ao sistema que me quebrou.
Eu tinha mudado a lei que o alimentava.
Meses depois, a Fortaleza Pedra Negra já não parecia túmulo.
Havia fogo nos corredores.
Havia risos no pátio.
Havia pão de queijo quente nas cozinhas, porque os cozinheiros do norte decidiram que guerra nenhuma justificava comida triste.
Artur caminhava sem bengala.
Às vezes, eu ainda olhava para ele como quem confirma se a felicidade não era truque.
‘Você sente falta da corte?’, ele perguntou uma tarde.
‘Não.’
Foi uma das respostas mais fáceis da minha vida.
‘A corte me deu correntes. O norte me deu ar.’
Ele pegou minha mão.
‘Você me escolheu primeiro para sobreviver. Se isso for tudo que quiser deste casamento, honrarei mesmo assim.’
Eu entendi ali por que podia amá-lo.
Porque ele nunca exigiu amor como pagamento.
‘Escolhi você primeiro porque ficou na minha frente’, eu disse. ‘Escolho você agora porque fica ao meu lado.’
Artur fechou os dedos nos meus.
A casa pareceu respirar conosco.
Mais tarde, diante dos clãs reunidos, ele contou a verdade sem floreio.
‘A corte a chamou de vaso.’
Deixou a frase cair.
‘Estavam errados sobre quase tudo.’
Olhei para ele.
‘Mesmo vasos podem guardar fogo.’
Ele negou com a cabeça.
‘Não, Lia. Você nunca foi o vaso. Você era a chama.’
Na minha primeira vida, acreditei que meu sangue existia para fazer um príncipe me amar.
Na segunda, aprendi a verdade.
Minha chama nunca foi feita para comprar amor.
Foi feita para acordar o dragão que queimaria o mundo antes de deixá-lo me machucar outra vez.