A Viúva Levada Pelo Homem Da Serra E O Relógio Que Revelou Tudo-nhu9999

Ana Silva jamais esqueceu o som do martelo subindo na praça.

Não foi o barulho que a quebrou.

Foi o silêncio antes dele cair.

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A cidade inteira estava ali, ou parecia estar.

Homens encostados no balcão da prefeitura, mulheres olhando debaixo de sombrinhas gastas, crianças proibidas de se aproximar, comerciantes fingindo ajeitar caixas para não admitir que estavam assistindo.

Ana subiu no estrado com Emma no colo e os outros três filhos grudados nela como se o tecido do vestido pudesse protegê-los.

Tomás, de 12 anos, ficou de queixo travado.

Sara, de 9, chorava sem fazer barulho.

Will, de 5, escondia o rosto atrás da saia da mãe.

O leiloeiro não olhou para eles como família.

Olhou como lote.

Na mesa diante dele havia um caderno, um tinteiro, uma nota do banco e o recibo que o prefeito José Santos chamava de legalidade.

Três semanas antes, Artur Silva tinha sido encontrado morto numa ribanceira.

A carroça estava partida.

Um eixo tinha se quebrado.

As rodas estavam meio enterradas no barro.

Disseram que foi acidente.

Disseram isso depressa demais.

Ana mal teve tempo de enterrar o marido antes que José Santos aparecesse na porta dela com dois homens e um papel.

A dívida, segundo ele, era de R$ 1.500.

Artur nunca falara de dívida.

Nunca deixara uma conta sem marcar.

Tinha o costume de anotar até compra de sal, vela e ferradura em pedaços de papel guardados numa lata.

Mas a palavra de uma viúva valia pouco diante de um prefeito com banco, guarda municipal e cartório ao alcance da mão.

Ana ofereceu trabalho.

Disse que lavaria roupa.

Disse que cozinharia.

Disse que limparia a casa da prefeitura, o hotel, a venda, qualquer lugar.

José Santos sorriu como se ela tivesse feito uma piada inconveniente.

Ele não queria pagamento.

Queria exemplo.

Se uma família podia ser quebrada em praça pública, as outras aprenderiam a assinar antes de perguntar.

No dia do leilão, o calor chegou cedo.

O chão levantava poeira a cada bota.

O cheiro de suor, madeira velha, charuto e café requentado se misturava no ar parado.

O sino da igreja bateu dez horas quando o leiloeiro ergueu a voz.

«Cinquenta reais pelo mais velho», anunciou.

Tomás enrijeceu.

Ana sentiu o braço dele tocar o dela.

Ele tentava ficar firme, mas a mão pequena tremia.

«Ombro bom», continuou o homem. «Forte o bastante para a mina.»

A palavra mina atravessou Ana com mais força que qualquer insulto.

Não era só trabalho.

Era distância.

Era escuridão.

Era um menino arrancado da mãe e entregue a homens que não sabiam nem seu nome.

José Santos estava sentado à sombra, com o charuto no canto da boca.

Não demonstrava pressa.

Homens como ele gostavam de fazer a crueldade parecer procedimento.

«O garoto vai para as minas», disse ele, alto o suficiente para Ana ouvir. «A menina serve no hotel. A viúva e os pequenos alguém leva.»

Sara enterrou o rosto no vestido da mãe.

Will começou a chorar.

Emma, no colo de Ana, mexeu a boca procurando leite.

Ana segurou todos como pôde.

Não havia como segurar quatro filhos contra uma cidade inteira.

«Setenta e cinco pelo menino», disse o leiloeiro.

O martelo subiu.

«Dou-lhe uma…»

Tomás olhou para Ana.

Aquele olhar ficaria dentro dela por muitos anos.

Não era só medo.

Era a primeira compreensão adulta de que os adultos podiam falhar.

«Dou-lhe duas…»

Foi então que as botas soaram na calçada de madeira.

O barulho parecia simples.

Dois passos.

Depois mais dois.

Mas a praça inteira ouviu.

Um homem saiu do meio do povo, alto demais para passar despercebido, largo demais para parecer comum.

Vestia couro gasto, camisa escura, botas de estrada e carregava uma espingarda no ombro.

A barba fechada cobria metade do rosto.

Os olhos claros, frios e atentos, fizeram dois soldados recuarem antes mesmo de saber por quê.

João Pereira.

O nome passou pela praça em sussurros.

Alguns o chamavam de homem da serra.

Outros diziam que tinha sido policial longe dali.

Havia quem jurasse que ele já enfrentara ladrões sozinho.

Também havia quem dissesse que ninguém vivia tanto tempo isolado no alto da serra sem carregar culpa.

João não cumprimentou ninguém.

Caminhou direto até o estrado.

«O leilão acabou», disse.

A voz dele era baixa.

Justamente por isso, todos ouviram.

José Santos levantou da cadeira.

O rosto dele ficou vermelho sob a sombra do chapéu.

«Pereira, isso é assunto legal. A viúva Silva deve ao meu banco.»

João colocou a mão no casaco.

Os soldados tocaram no coldre.

Ana puxou Sara para perto.

Mas João não sacou arma.

Tirou uma bolsa de couro manchada e jogou sobre a mesa.

O som foi pesado.

Metálico.

O leiloeiro olhou primeiro para a bolsa, depois para o prefeito.

«Cinquenta onças de ouro de garimpo», disse João. «Dá para quitar a dívida.»

Ninguém respirou direito por alguns segundos.

Cinquenta onças era mais dinheiro do que muitos ali veriam em anos.

José Santos olhou para a bolsa como quem vê uma porta se fechar.

João virou para Ana.

«Eu fico com ela», disse, «e com todos os filhos dela.»

O choque atravessou a praça.

Algumas mulheres baixaram os olhos.

Um homem riu uma vez, sem coragem de continuar.

Ana deveria ter se ajoelhado de gratidão.

Mas seu corpo inteiro se contraiu.

A família dela não estava sendo libertada.

Estava sendo transferida.

E o homem que pagara por todos não parecia misericórdia.

Parecia um mistério armado.

Ao meio-dia, a carroça de João deixou a cidade.

Ana sentou atrás, com Emma no colo, Sara ao lado, Will entre os joelhos e Tomás na beirada, olhando para trás enquanto a praça diminuía.

Ninguém correu atrás.

Ninguém pediu desculpa.

Ninguém disse que aquilo era errado.

O povo só observou até a poeira cobrir a estrada.

No fim da tarde, João parou perto de um córrego.

Tirou pão de milho e carne seca de um saco.

Deu primeiro às crianças.

Will comeu chorando.

Sara mordia pedaços pequenos demais.

Tomás recusou no começo, por orgulho ou medo.

João apenas deixou o pedaço sobre uma pedra perto dele.

Depois foi encher o cantil.

Quando voltou, o pão tinha sumido.

Naquela noite, Ana não dormiu.

Ficou sentada com as costas contra a carroça, Emma no colo e os olhos na silhueta de João perto do fogo.

Ele não tentou se aproximar.

Não fez perguntas.

Não exigiu nada.

Essa calma, em vez de tranquilizá-la, a deixava mais alerta.

No segundo dia, o rio estava cheio.

João passou primeiro com a corda.

Depois mandou Tomás vir devagar.

No meio da travessia, o menino escorregou numa pedra lisa.

A água puxou as pernas dele.

Ana gritou.

João largou a carga e agarrou Tomás pela gola antes que a correnteza virasse o corpo do menino.

Puxou-o de volta com uma força brutal.

Tomás tossiu água e tentou parecer envergonhado em vez de assustado.

João não o repreendeu.

Apenas entregou a ele o cantil.

«Respira primeiro», disse.

Foi a primeira frase gentil que Ana ouviu dele.

No terceiro dia, Will começou a chorar quando a mata escureceu.

João vasculhou a caixa da carroça e tirou um ursinho de madeira.

Era pequeno, bem talhado, com as orelhas gastas.

Entregou ao menino sem dizer nada.

Will segurou o brinquedo como se fosse pão.

Ana viu a mão do homem se afastar depressa, quase com vergonha.

Aquilo a confundiu.

Monstros não costumavam alimentar crianças antes de si mesmos.

Mas homens bons também não compravam uma viúva e quatro filhos numa praça.

No quarto dia, chegaram à cabana.

Ficava num trecho alto da serra, cercada de mata, pedra e neblina.

Havia um varal entre duas árvores, um fogão a lenha, ferramentas penduradas por tamanho, mapas enrolados no canto e uma mesa grossa marcada por anos de faca e copo.

Não era uma casa de família.

Era um lugar de espera.

João mostrou onde as crianças dormiriam.

Deixou farinha, café, feijão e açúcar sobre a mesa.

Disse a Ana que a porta não ficava trancada por dentro.

Ela reparou nisso.

Também reparou que ele dormiu do lado de fora, no primeiro anoitecer, encostado perto do batente como um cão de guarda.

Mesmo assim, Ana manteve o atiçador de ferro perto da mão.

De manhã, João saiu para cortar lenha.

Tomás foi buscar água.

Sara e Will juntaram gravetos perto do varal.

Emma dormia numa manta dobrada.

Ana varreu o chão da cabana como quem precisava ocupar as mãos para não enlouquecer.

Foi então que viu o baú.

Madeira escura.

Cantos gastos.

Meio escondido sob mapas e uma lona dobrada.

A trava estava mal fechada.

Ana ficou olhando tempo demais.

Depois se ajoelhou.

Havia coisas que uma mulher sozinha não podia se dar ao luxo de ignorar.

Dentro do baú, encontrou papéis dobrados, recibos, cadernos de levantamento de terra, mapas com marcas a lápis e uma caderneta preta presa por barbante.

Embaixo de tudo, havia um relógio de bolso de prata.

Ana pegou o objeto com dois dedos.

A tampa tinha um risco perto da dobradiça.

Ela conhecia aquele risco.

Artur o fizera ao derrubar o relógio na pedra do poço, num domingo, dois anos antes.

Era o relógio do marido.

O relógio que ele usava no dia em que morreu.

O chão pareceu sumir.

Ana recuou até o fogão.

Pegou o atiçador.

Quando João entrou, com lenha nos braços, encontrou a mulher de pé, o rosto sem cor, o relógio aberto sobre a mesa.

«Você matou ele», ela sussurrou.

João soltou a lenha.

Os pedaços bateram no chão.

Por um instante, o homem enorme não pareceu perigoso.

Pareceu velho.

«Não, Ana», disse. «Artur foi assassinado.»

Ela apertou o atiçador.

«Não diga o nome dele.»

João aceitou a ordem sem discutir.

Sentou-se devagar, como se cada movimento precisasse provar que ele não a atacaria.

Depois apontou para os mapas.

«Abra a caderneta preta.»

Ana não se moveu.

«Abra», repetiu ele. «Foi ele quem escreveu.»

A letra de Artur apareceu na primeira página.

Ana reconheceria aquela inclinação em qualquer lugar.

Reconheceria o jeito dele cortar o T, a pressa no S, os números apertados quando faltava espaço.

A caderneta não era diário.

Era prova.

Havia nomes de famílias.

Havia medidas de terra.

Havia valores.

Havia anotações sobre recibos, dívidas, assinaturas e documentos levados ao cartório.

Na margem de uma página, Artur escrevera que as dívidas eram fabricadas.

Em outra, anotara que José Santos estava comprando sítios por quase nada, depois revendendo as terras para uma companhia ligada à construção de estrada de ferro.

Ana leu uma vez.

Depois leu de novo.

A raiva mudou de forma dentro dela.

Antes era fogo.

Agora era lâmina.

João puxou um segundo documento debaixo dos mapas.

Era uma folha dobrada, manchada de lama seca.

«Artur me entregou isso dois dias antes de morrer», disse.

Ana olhou para ele.

«Por quê?»

«Porque sabia que estava sendo seguido.»

Ela engoliu seco.

João continuou.

Contou que Artur subira a serra à noite.

Contou que chegou com o relógio no bolso e a caderneta escondida dentro da camisa.

Contou que pediu a João para guardar os papéis e procurar Ana se ele não voltasse.

Ana queria odiar João por cada segundo de atraso.

Queria perguntar por que ele não apareceu no enterro.

Por que deixou José Santos chegar primeiro.

Por que esperou até ver Tomás quase vendido na praça.

João respondeu antes que ela perguntasse tudo.

«Eu desci no dia seguinte», disse. «Encontrei a carroça na ribanceira. Encontrei o relógio preso na lama. O corpo já tinha sido levado.»

Ele passou a mão pela barba.

«Tentei falar com o cartório. O escrivão sumiu. Tentei falar com dois homens da guarda. Um deles me mandou embora. O outro apareceu morto três dias depois.»

Ana sentiu Sara e Tomás na porta.

As crianças tinham ouvido.

Tomás olhava fixo para o relógio.

O menino que tentara não chorar na praça finalmente quebrou.

Virou o rosto para a parede e levou a mão à boca.

Ana deu um passo, mas o documento menor chamou sua atenção.

Nele havia quatro nomes.

Três estavam riscados.

O quarto estava circulado.

Tomás Silva.

A letra não era de Artur.

Era dura, inclinada, apressada.

João viu quando Ana entendeu.

«Eles não queriam só a terra», disse. «Queriam apagar quem podia provar.»

Will apertou o ursinho de madeira.

Sara começou a chorar de novo.

Ana colocou o atiçador sobre a mesa sem soltar de vez.

«Então por que você esperou até o leilão?»

João baixou os olhos.

«Porque eu precisava que José Santos dissesse em público o que pretendia fazer. Eu precisava que ele se mostrasse diante de testemunhas.»

Ana riu uma vez, sem alegria.

«Testemunhas? Aquela praça inteira assistiu meu filho ser vendido.»

«Assistiu», disse João. «E agora não pode fingir que não viu.»

Antes que ela respondesse, cascos soaram na trilha.

Um cavalo.

Depois outro.

Depois mais.

João se levantou.

Pegou a espingarda, mas não apontou para a porta.

Apenas ficou entre a entrada e as crianças.

Ana juntou os documentos com mãos rápidas.

Tomás limpou o rosto com a manga e tentou se pôr de pé.

João olhou para ele.

«Não precisa bancar o forte agora.»

Tomás não respondeu.

A sombra dos cavalos passou pela janela.

Um homem chamou do lado de fora.

Não era José Santos.

Era o leiloeiro.

A voz dele vinha quebrada.

Disse que não queria problema.

Disse que só tinha obedecido ordem.

Disse que o prefeito mandara homens subirem a serra antes do anoitecer.

João abriu a porta só o suficiente para enxergar.

O leiloeiro estava pálido, segurando o chapéu contra o peito.

Ao lado dele vinha um rapaz do cartório, suado e coberto de poeira, trazendo uma pasta enrolada no casaco.

O rapaz quase caiu ao descer do cavalo.

«Eu tenho o livro», disse ele.

Ana ficou imóvel.

O rapaz olhou para ela como se soubesse que chegara tarde para pedir perdão.

«O livro verdadeiro do cartório», completou. «Seu marido não mentiu.»

João mandou os dois entrarem.

Não por confiança.

Por necessidade.

O livro foi colocado sobre a mesa da cabana, ao lado da caderneta de Artur e do relógio de prata.

Era pesado, de capa escura, com marcas de uso nos cantos.

O rapaz abriu numa página já marcada por um pedaço de pano.

Ali estavam os nomes de cinco famílias.

Depois, em outra coluna, as mesmas terras apareciam transferidas para intermediários.

Em seguida, para uma empresa ligada à estrada.

Em todas as etapas, a dívida aparecia como justificativa.

Mas os valores não batiam.

As datas não batiam.

Algumas assinaturas eram de gente que já tinha morrido.

Uma delas era de Artur.

Datada de quatro dias depois da morte dele.

Ana tocou a página com a ponta dos dedos.

Não chorou.

Não naquele momento.

Há horas em que a dor fica obediente porque a verdade exige as duas mãos livres.

João pediu ao rapaz que dissesse em voz alta quem mandara alterar o livro.

O rapaz tremia tanto que os dentes batiam.

Disse o nome de José Santos.

Disse que o prefeito mantinha as cópias falsas no banco.

Disse que o plano era levar Tomás para longe antes que alguém lembrasse que o menino sabia onde Artur guardava papéis em casa.

Tomás levantou a cabeça.

Ana se virou para ele.

«Você sabia?»

O menino engoliu.

«Pai me mostrou a lata», disse. «A da parede do forno.»

Ana fechou os olhos por um segundo.

A lata das contas.

Aquela que ela quase entregara aos homens do prefeito quando eles revistaram a casa.

João entendeu ao mesmo tempo.

«Eles ainda não acharam», disse.

O leiloeiro olhou para a porta.

«Mas vão achar. José mandou abrir sua casa hoje.»

Ana pegou o relógio de Artur.

Fechou a tampa.

O clique pequeno pareceu uma decisão.

«Então nós vamos voltar», disse.

João a encarou.

«Não é seguro.»

«Seguro foi o que fizeram comigo na praça?»

Ele não respondeu.

Não havia resposta.

Ao anoitecer, desceram a serra por uma trilha lateral.

O leiloeiro ficou para trás com Sara, Will e Emma, escondidos na cabana, porque Ana não aceitou colocar os pequenos novamente diante de José Santos.

Tomás insistiu em ir.

Ana quase recusou.

Depois lembrou que o nome dele estava circulado na lista.

A verdade, às vezes, também precisava ser protegida por quem a carregava.

João foi na frente.

Ana foi no meio, com a caderneta presa sob a roupa.

Tomás seguiu atrás, segurando a pequena faca de cortar corda que João lhe dera.

Não era arma para lutar.

Era ferramenta para não se sentir indefeso.

Chegaram à casa dos Silva quando a lua já tinha subido.

A porta estava arrombada.

Dentro, gavetas abertas, panelas viradas, roupas no chão.

A lata não estava na cozinha.

Ana correu ao fogão.

A parede atrás dele tinha uma pedra solta.

Artur sempre dizia que ali era lugar de guardar coisa que não podia molhar.

Tomás ajoelhou antes dela.

Com dedos rápidos, puxou a pedra.

A lata estava lá.

Amassada.

Fechada.

Ana segurou a respiração enquanto João abria.

Dentro havia recibos originais, comprovantes de pagamento, uma cópia da nota do banco com rasura, e uma carta curta de Artur.

A carta não era romântica.

Artur não escrevia bonito quando tinha medo.

Ele escrevia claro.

Dizia que José Santos falsificava dívidas.

Dizia que a morte dele não deveria ser tratada como acidente se ele não voltasse da reunião marcada perto da ponte.

Dizia que João Pereira tinha a outra metade dos documentos.

Dizia que Ana deveria proteger as crianças antes de proteger a casa.

Ana leu até o fim sem respirar direito.

Depois dobrou a carta e colocou junto ao relógio.

Foi quando ouviram vozes do lado de fora.

José Santos tinha chegado.

Não veio sozinho.

Dois homens da guarda estavam com ele.

Outro carregava uma lanterna.

O prefeito entrou como dono.

Parou ao ver Ana de pé no meio da sala.

Por um instante, a surpresa dele foi verdadeira.

Depois ele sorriu.

«A viúva voltou.»

Ana não respondeu.

João saiu da sombra perto da parede.

O sorriso do prefeito diminuiu.

Tomás ficou atrás da mãe, mas não abaixou os olhos.

José Santos olhou para a lata na mão dela.

Ali, finalmente, teve medo.

Não muito.

Homens acostumados a mandar demoram a reconhecer que a sala mudou.

Mas teve.

João colocou o livro verdadeiro do cartório sobre a mesa.

Ana colocou a caderneta de Artur ao lado.

Depois colocou a carta.

Por último, o relógio de prata.

Quatro objetos simples.

Quatro coisas que o prefeito não conseguiu comprar a tempo.

Um dos guardas se aproximou.

João ergueu a mão, não a arma.

«Leia antes», disse.

O guarda hesitou.

José Santos ordenou que ele prendesse João.

Mas a voz do prefeito saiu alta demais.

O guarda olhou para o livro.

Olhou para a carta.

Olhou para Tomás.

Talvez tenha lembrado da praça.

Talvez tenha lembrado do próprio filho.

Talvez só tenha percebido que obedecer à ordem errada agora significava deixar assinatura em crime grande demais.

Ele não prendeu João.

Pegou a carta.

Leu em silêncio.

Depois passou ao outro guarda.

José Santos perdeu a cor.

«Isso não vale nada», disse.

Ana falou pela primeira vez.

«Então vamos levar ao fórum.»

O prefeito deu um passo na direção dela.

João se moveu também.

Não apontou a arma.

Não precisou.

A sala inteira entendeu a distância.

O leiloeiro, que havia descido depois com o rapaz do cartório, apareceu na porta com dois vizinhos.

Depois veio uma mulher da venda.

Depois outro homem.

A praça que tinha assistido em silêncio agora começava a formar testemunha na porta da casa arrombada.

José Santos olhou para todos.

Pela primeira vez, percebeu que a vergonha pública podia mudar de dono.

O rapaz do cartório abriu o livro verdadeiro e mostrou a página com a assinatura de Artur datada depois da morte.

O guarda pediu a lanterna.

Leu a data em voz alta.

O silêncio que veio depois não foi o mesmo da praça.

Aquele era de reconhecimento.

O prefeito tentou rir.

Ninguém acompanhou.

A situação deixou de ser dívida.

Virou falsificação.

Virou tomada de terra.

Virou suspeita sobre a morte de Artur.

E, acima de tudo para Ana, virou o momento em que Tomás deixou de ser um menino à venda e voltou a ser uma criança que precisava dormir sem medo.

Os guardas levaram José Santos naquela noite até a cadeia local.

Não houve discurso heroico.

Não houve aplauso bonito.

Houve papel recolhido, depoimento tomado, livro lacrado e gente demais vendo para que tudo desaparecesse de novo.

No dia seguinte, os documentos foram encaminhados ao fórum da comarca.

O livro verdadeiro do cartório, a carta de Artur, a caderneta preta e os recibos da lata foram registrados juntos.

O leiloeiro prestou depoimento.

O rapaz do cartório confirmou as alterações.

Duas outras famílias apareceram com recibos parecidos.

Depois mais uma.

Depois outra.

O caso cresceu não porque a cidade ficou corajosa de repente, mas porque uma prova puxa outra quando a primeira pessoa para de baixar os olhos.

A dívida de R$ 1.500 foi anulada.

A casa dos Silva deixou de constar como garantia.

As terras tomadas com documentos falsos foram bloqueadas até decisão final.

A morte de Artur passou a ser investigada como crime, não acidente.

Ana não fingiu que isso trazia o marido de volta.

Nenhum papel faz isso.

Nenhum fórum devolve uma voz à mesa.

Mas papel pode impedir que o nome de um morto seja usado contra os filhos dele.

E, naquela altura, isso era uma forma de justiça.

João devolveu o relógio a Ana na saída do fórum.

Ela olhou para a tampa riscada.

Por dias, aquele objeto tinha sido a prova de que ela talvez tivesse caído nas mãos do assassino do marido.

Agora era outra coisa.

Era o caminho que Artur deixara para casa.

«Por que pagou tanto por nós?» ela perguntou.

João demorou a responder.

«Porque eu devia isso a ele.»

Ana esperou.

Ele continuou.

Disse que anos antes Artur o encontrara ferido numa estrada e o escondera por três noites sem fazer perguntas.

Disse que Artur lhe dera comida, água e silêncio quando silêncio valia mais que ouro.

Disse que nunca tivera família para pagar dívida de gratidão.

Quando viu Ana no estrado com as crianças, entendeu que aquela era a única conta que importava.

Ana não o perdoou de imediato por ter chegado tarde.

Também não o condenou pelo que não sabia.

A vida raramente entrega pessoas limpas, prontas, fáceis de entender.

Às vezes, entrega um homem assustador com uma bolsa de ouro e uma culpa antiga.

Nas semanas seguintes, Ana voltou para casa com os filhos.

João consertou a porta arrombada sem entrar além da cozinha.

Tomás ajudou, mais calado do que antes, mas com os ombros um pouco menos tensos.

Sara colocou o ursinho de madeira na prateleira perto da cama de Will.

Emma aprendeu a engatinhar sobre o chão que quase tinham perdido.

Uma tarde, Ana encontrou Tomás sentado diante do fogão, olhando para a pedra solta onde a lata ficara escondida.

Ele disse que tinha medo de esquecer o rosto do pai.

Ana abriu o relógio de prata e colocou na mão dele.

Dentro da tampa, Artur tinha gravado duas iniciais pequenas.

A.S.

Ana Silva.

Tomás passou o dedo sobre as letras.

Na praça, ele aprendera cedo demais que adultos podiam falhar.

Naquele dia, dentro de casa, começou a aprender outra coisa.

Alguns adultos voltam.

Alguns documentos falam.

E algumas mães, mesmo tremendo, seguram o mundo com uma mão até conseguir abrir a verdade com a outra.

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