A Viúva Da Cacimba Que Fez O Coronel Do Sertão Baixar A Cabeça-nhu9999

O tiro não saiu do medo.

Saiu da respiração.

Otacílio tinha me ensinado na noite anterior, com o revólver descarregado apontado para a parede de barro.

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‘Inspira, solta metade e segura o resto.’

Eu fiz isso enquanto Cícero Branco puxava meu cabelo e levantava a faca.

O mundo ficou pequeno.

Havia a mão dele.

Havia a faca.

Havia o caderno no chão.

E havia Otacílio parado na porta, sem poder atirar sem me acertar.

Cícero sorriu para ele.

‘Fumaça ficou velho’, disse.

Foi a primeira vez que ouvi aquele nome dentro da minha casa.

Otacílio não respondeu.

Só olhou para mim.

‘Rosa.’

Eu baixei o cotovelo.

A mão não tremeu.

O disparo encheu a cozinha de barro como trovão preso.

Cícero largou meu cabelo e bateu contra a parede.

A faca caiu primeiro.

Depois ele caiu sentado, com surpresa no rosto e a coragem vazando sem sangue visível.

Otacílio atravessou o cômodo e chutou a lâmina para longe.

‘Acabou?’, perguntei.

Ele se ajoelhou perto de Cícero, conferiu o que precisava conferir e levantou o olhar.

‘Para ele, sim.’

Mas eu sabia que não tinha acabado.

Coronel Álvaro Peixoto ainda estava na vila.

O armazém dele ainda vendia sal, couro, querosene e favor.

O cartório ainda abaixava a voz quando o nome dele passava pela porta.

Os pequenos criadores ainda levavam gado magro até nossa cacimba e pediam desculpa por precisar de água.

Caetano tinha morrido por isso.

Não pela terra.

Pela prova.

O caderno de capa de couro não tinha poesia nenhuma.

Tinha contas, datas, nomes e promessas quebradas.

Na primeira página, Caetano anotara quem pagou pela água em ano seco.

Na quinta, escreveu quem recebeu desconto porque perdeu bezerro na estiagem.

Na décima segunda, começou a aparecer o coronel.

Coronel Álvaro pressionou Chico Nunes a vender doze vacas por metade do preço.

Coronel Álvaro mandou fechar a passagem de Zé Rufino até ele assinar dívida nova.

Coronel Álvaro ofereceu dinheiro pela cacimba e ameaçou mudar os acordos.

A última página era a que mais doía.

Cícero veio outra vez. Disse que mulher viúva entende tarde, mas entende.

Caetano escreveu aquilo dez dias antes de morrer.

O mal nunca cresce sozinho; ele aprende com todos que desviam os olhos.

Bento Carreiro provou isso quando deixou de desviar.

Ele tinha visto Cícero trazer o corpo de Caetano.

Também tinha visto os irmãos Lauro e Leôncio cercarem a estrada para impedir testemunha.

Mesmo assim, ficou calado por dias.

Bento era velho, manco e acostumado a sobreviver.

No sertão, sobreviver muitas vezes parece prudência.

Às vezes, é só medo usando chapéu limpo.

Na madrugada depois do ataque, ele montou uma égua baia e levou a cópia do caderno.

Otacílio tinha escrito uma carta curta para o juiz municipal.

Eu embrulhei as páginas em pano de prato.

Bento escondeu tudo dentro de uma saca de farinha.

‘Se me pararem?’, ele perguntou.

Otacílio olhou para a estrada.

‘Diga que farinha não confessa.’

Bento quase riu.

Depois fez o sinal da cruz e foi.

O sol nasceu vermelho, como se a própria terra estivesse irritada.

Passei a manhã lavando o chão da cozinha, embora quase nada houvesse para lavar.

Dona Mariana chegou antes do meio-dia.

Ela olhou a parede, olhou meu cabelo solto e não perguntou nada.

Só colocou cuscuz numa gamela.

‘Coma, menina.’

‘Não consigo.’

‘Consegue sim. Seu filho não brigou com ninguém.’

Eu comi duas colheradas.

Pareciam pedra.

Otacílio passou o dia inteiro no terreiro, perto da cacimba.

Não posava como herói.

Não gostava daquele revólver na cintura.

Vi isso nele.

A arma parecia um pecado antigo que tinha aprendido o caminho de volta para a mão.

No fim da tarde, os irmãos Lauro e Leôncio apareceram na estrada.

Vinham sem pressa, lado a lado, como espelho ruim.

Otacílio ficou onde estava.

Eu fiquei no alpendre.

O vento batia no mandacaru e fazia um som seco.

Lauro foi o primeiro a falar.

‘Cícero?’

‘Vivo’, disse Otacílio. ‘Amarrado no rancho.’

Leôncio olhou para mim.

‘Coronel vai querer a viúva.’

Eu dei um passo à frente.

‘Então mande ele trazer papel passado.’

Os dois olharam para Otacílio.

Esperavam que ele falasse por mim.

Ele não falou.

Aquilo os irritou mais que ameaça.

Homem mandado por coronel aceita bala melhor que mulher respondendo.

Lauro cuspiu no chão.

‘A água não segura vocês.’

‘Não’, eu disse. ‘Mas o caderno segura.’

Foi a primeira vez que vi medo nos olhos deles.

Não era medo de mim.

Era medo de papel.

Porque papel certo chega onde bala errada não chega.

Eles foram embora antes de escurecer.

Na manhã seguinte, o delegado Antero chegou com dois praças e o juiz municipal.

Bento vinha atrás, quase caindo de sono.

A égua baia parecia ofendida por ainda estar viva.

O juiz não entrou na minha casa falando alto.

Tirou o chapéu no terreiro e pediu para ver a cacimba.

Levei todos até a boca de pedra.

A água brilhava lá embaixo, pouca e limpa.

Caetano dizia que água de lajedo não tem orgulho.

Ela serve a quem desce o balde.

O juiz abriu o caderno sobre uma caixa de arreio.

Leu três páginas.

Depois chamou Bento.

‘O senhor confirma sua assinatura aqui?’

Bento endireitou as costas.

‘Confirmo.’

‘E confirma que levou recado do coronel?’

‘Levei.’

‘E confirma que o falecido recusou vender a cacimba?’

Bento olhou para mim.

Por um segundo, pareceu o homem velho de sempre.

Depois ficou maior.

‘Confirmo. E confirmo que Cícero mentiu sobre a queda.’

O terreiro ficou mudo.

Até os praças pararam de mexer nas correias.

Otacílio baixou os olhos.

Aquela frase fazia por Caetano o que minha enxada não conseguiu fazer.

Tirava meu marido da mentira.

O delegado foi ao armazém ainda naquela tarde.

Coronel Álvaro Peixoto estava sentado atrás do balcão, com uma xícara de café e um livro de missa aberto.

Ele gostava de parecer homem de ordem.

Tinha prateleiras de sal, couro e rapadura atrás dele.

Também tinha dois capangas na porta.

Quando viu o juiz, não levantou.

‘Que honra inesperada.’

O juiz colocou o caderno sobre o balcão.

Não abriu.

Só deixou que o coronel visse a capa.

Foi o bastante.

A mão de Álvaro parou perto da xícara.

O café tremeu dentro dela.

‘Isso é de uma viúva assustada’, ele disse.

Bento deu um passo para frente.

‘Não. É de um homem morto que escrevia melhor que muito vivo mente.’

Ninguém respirou direito.

O coronel olhou para Bento como se enxergasse um objeto quebrado.

‘Você devia cuidar da sua velhice.’

‘Estou cuidando’, Bento respondeu.

O delegado mandou os praças cercarem a porta.

Os capangas não se mexeram.

Sem Cícero, sem os irmãos e sem certeza de impunidade, ficaram parecendo homens comuns.

Homem comum pesa menos.

O juiz leu a ordem em voz clara.

Coronel Álvaro pediu advogado.

‘Vai ter’, disse o delegado. ‘Depois de dormir na cadeia da vila.’

Foi ali que o rosto dele mudou.

Não quando viu arma.

Não quando viu praça.

Mudou quando percebeu que todos estavam olhando.

O balcão do armazém, que sempre o fazia parecer dono do mundo, virou uma tábua estreita.

Ele colocou o chapéu devagar.

Saiu sem tropeçar.

Mas saiu menor.

Na semana seguinte, o juiz reconheceu por escrito os acordos de Caetano.

A cacimba continuaria na fazenda do Angico.

Mas nenhum criador pequeno seria expulso dela por ordem de coronel.

Paguei o registro no cartório com mãos firmes.

O escrivão perguntou se eu queria assinar como viúva de Caetano Monteiro.

Olhei para a pena.

‘Assino como Rosa Monteiro.’

Ele não discutiu.

Otacílio ficou oito dias.

Consertou a cerca da vereda, enterrou o arame usado na armadilha e refez a trava do defumador.

Dormia pouco.

Às vezes, eu o via no terreiro antes do amanhecer.

Ele olhava para a estrada como quem esperava o passado voltar montado.

Na nona manhã, ouvi sela sendo apertada.

Saí com um xale nos ombros.

O céu estava azul frio, e a caatinga ainda parecia cinza.

Otacílio tinha amarrado atrás da sela a manta velha de Caetano.

Eu tinha dado permissão.

Mesmo assim, doeu.

‘Você podia ficar’, eu disse.

‘Tem água aqui.’

‘Tem.’

‘Tem trabalho.’

‘Tem.’

‘Então por que vai?’

Ele passou a mão pelo pescoço do cavalo.

‘Porque Fumaça ainda acha caminho para dentro de mim.’

‘Caetano teria pedido que você ficasse.’

Otacílio sorriu triste.

‘Caetano sempre pediu coisa melhor do que eu sabia dar.’

Eu não chorei.

Já tinha aprendido que choro não mede amor.

Às vezes, amor é ficar de pé quando a terra quer dobrar seus joelhos.

Ele montou.

Antes de partir, olhou para a cacimba.

‘Ele morreu guardando água para gente que nem agradecia.’

‘Não’, eu disse. ‘Ele morreu guardando justiça até alguém ter coragem de ler.’

Otacílio segurou a rédea por mais um instante.

Depois inclinou a cabeça.

Quando sumiu na curva da vereda, Bento Carreiro apareceu do outro lado com um embrulho.

Trouxe o caderno de volta.

O juiz tinha mandado copiar tudo.

O original ficaria comigo.

Bento me entregou com as duas mãos.

‘Eu devia ter falado antes’, ele disse.

‘Podia ter salvado Caetano?’

Ele fechou os olhos.

‘Talvez não.’

‘Então salve o próximo.’

Bento assentiu.

Meses depois, quando meu filho nasceu, ele foi o primeiro homem da vila a bater palma no terreiro.

Trouxe rapadura embrulhada em folha limpa.

Também trouxe notícia.

Coronel Álvaro tinha perdido o armazém, os contratos e o costume de ser cumprimentado primeiro.

Cícero Branco nunca mais pisou numa porteira minha.

Os irmãos Lauro e Leôncio desapareceram para o lado de Minas.

A cacimba continuou ali.

Todo verão, alguém vinha com barril, pote ou rebanho magro.

Eu cobrava preço justo.

Também anotava tudo.

O caderno de Caetano ganhou páginas novas.

Na primeira delas, escrevi o nome do meu filho.

Não como herdeiro de vingança.

Como herdeiro de água limpa.

E no rodapé, em letra menor, escrevi outra coisa.

Bento Carreiro entregou a prova.

Porque essa era a verdade que ninguém contava quando repetia a história do homem chamado Fumaça.

Otacílio voltou com um revólver.

Eu baixei o cotovelo.

Mas foi Bento, velho e manco, que atravessou a noite com o caderno escondido na farinha.

Foi ele quem fez o coronel baixar a cabeça em plena vila.

O sertão lembra bala por muito tempo.

Mas deveria lembrar mais quem para de olhar para o chão.

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