Na internet, eu era Sereia.
Minha voz entrava nas lives tarde da noite e fazia gente cansada ficar em silêncio.
Na Universidade Metropolitana de Campinas, eu era Mariana Lopes.

Isso significava moletom cinza, cabelo preso de qualquer jeito e um lugar fixo no quinto andar da Biblioteca Central.
Eu não era invisível.
Eu só era conveniente demais para ser vista.
Caio Menezes adorava a parte conveniente.
Ele era capitão da atlética, streamer popular e comprador compulsivo de equipamentos no jogo.
Durante quase um ano, ele me chamou de namorada virtual sem pedir minha autorização.
Eu corrigia uma vez, duas vezes, depois deixava passar.
A voz que fazia dinheiro para o canal dele também fazia Caio se sentir escolhido.
Bianca Duarte dividia república comigo.
Ela estudava arquitetura, usava roupas claras e sorria como se tivesse nascido diante de uma banca avaliadora.
Eu achava estranho ela se interessar tanto pelo meu caderno.
Mesmo assim, fui burra o bastante para acreditar em convivência.
Três semanas antes da gala, minha pasta principal desapareceu.
Dentro dela estavam os croquis de Cidade Fluida, meus cálculos e a primeira maquete de sustentação.
Cidade Fluida era um projeto para o edital Guimarães de inovação urbana.
Quem ganhasse teria bolsa, mentoria e uma porta aberta no mercado inteiro.
Eu procurei a pasta na biblioteca, na república e no laboratório.
Bianca me ajudou a procurar.
Esse foi o primeiro detalhe que me ensinou a desconfiar tarde demais.
Na noite do campeonato universitário, Caio começou a live rindo.
Eu estava no jogo, escondida atrás da personagem Sereia, comandando a equipe com fone velho.
O chat tinha milhares de pessoas.
Caio abriu uma foto minha na tela.
Eu estava curvada sobre uma mesa da biblioteca, com o moletom cobrindo metade do rosto.
“Essa é a Sereia de vocês”, ele disse.
A risada dele estourou no meu fone.
“Essa rata de moletom nunca podia ser a Sereia.”
O chat mudou de cor.
Gente que me chamava de rainha começou a me chamar de fraude.
Bianca apareceu na chamada com uma expressão triste demais para ser honesta.
“Eu só achei que as pessoas mereciam saber”, ela disse.
Então Caio falou de Cidade Fluida.
Disse que Bianca era a verdadeira criadora.
Disse que eu copiava coisas porque gente como eu só sabia rondar biblioteca.
Minha mão apertou o mouse.
“Bianca”, eu perguntei, “qual é a função da camada central de sustentação?”
Ela sorriu.
Caio cortou antes que ela respondesse.
“Não usa essa voz barata para humilhar minha noiva.”
Foi aí que Orion entrou.
O servidor inteiro conhecia aquele nome.
Orion era o melhor jogador do ranking e o dono da empresa de IA que todos comentavam no campus.
Na vida real, ele era Ícaro Farias.
Eu só descobri isso depois.
Naquela noite, eu vi apenas a notificação dourada.
Orion desafiou Caio para um duelo fechado.
Caio xingou, riu e aceitou.
Durou dez segundos.
Um tiro atravessou o mapa e derrubou o personagem dele antes do primeiro golpe.
Orion falou uma única frase.
“Você não é digno de ouvir a voz dela.”
O chat travou.
Depois explodiu.
Eu não agradeci.
Eu salvei a gravação.
Na manhã seguinte, Bianca entrou na república com Caio atrás dela.
Ela segurava um copo de café gelado da cantina.
Eu estava terminando a maquete reserva, porque desistir nunca foi meu defeito.
Bianca olhou as torres pequenas.
“Você ainda desenha esse lixo?”
Caio riu pela porta.
“Ela nasceu para limpar mesa, não para assinar projeto.”
Bianca inclinou o copo.
O café caiu sobre a Cidade Fluida.
A passarela cedeu devagar.
A torre principal afundou.
Uma parte de mim queria gritar.
Outra parte começou a memorizar tudo.
“Minha mão escorregou”, Bianca disse.
Ela falou isso olhando direto para mim.
Caio puxou Bianca para fora, como se tivesse assistido a uma cena divertida.
Eu fiquei sozinha com o papel molhado.
Peguei um pano e limpei a mesa.
Não havia lágrimas.
Havia uma calma perigosa.
A vantagem de ser chamada de nada é que ninguém vigia o nada.
Na quarta-feira, voltei ao quinto andar da biblioteca.
O ar cheirava a livro antigo e café requentado.
Eu estava recalculando a versão digital quando a porta pesada abriu.
O silêncio mudou antes que eu levantasse os olhos.
Ícaro Farias caminhou até minha mesa.
No campus, chamavam Ícaro de Rei do Gelo.
Ele falava pouco, recusava convites e deixava todo mundo nervoso sem tentar.
As meninas perto da janela esqueceram os próprios notebooks.
Ele parou ao meu lado.
“Você ainda não vestiu a Nebulosa Rainha”, sussurrou.
Eu quase derrubei a caneta.
“Orion?”
Ele deslizou o celular sobre a mesa.
Na tela havia mensagens, recibos e arquivos de voz.
Bianca tinha contratado uma equipe clandestina para clonar minha voz.
Ela pretendia discursar na gala com meu timbre.
Ela não queria apenas o projeto.
Ela queria parecer a mulher que criou o projeto.
Ícaro perguntou se eu queria que ele derrubasse o som do auditório.
Eu olhei para os documentos.
Depois olhei para a caixa plástica onde a maquete arruinada secava.
“Não”, eu disse.
“Deixa ela falar.”
Na noite anterior à gala, Ícaro me encontrou no laboratório de arquitetura.
Ele trouxe café e colocou longe da mesa.
“Sem baixas arquitetônicas hoje”, disse.
Eu ri sem querer.
Ele analisou meus cálculos por alguns minutos.
“Você corrigiu o eixo central.”
“Eu precisava.”
“A versão dela cai.”
“Antes da inauguração.”
Ele apoiou os dedos na borda da mesa.
“Eu posso falar por você amanhã.”
“Não fala.”
Ele levantou as mãos.
“Eu nem ousaria, comandante.”
Foi a primeira vez que gostei desse apelido.
A gala aconteceu no auditório principal.
Havia professores, patrocinadores, câmeras e alunos vestidos como se o futuro tivesse código de roupa.
Bianca chegou de branco.
Caio veio ao lado dela, tentando recuperar a pose perdida no jogo.
Quando entrei, o burburinho veio junto.
Eu não usava moletom.
Também não usava fantasia.
Era um casaco preto simples, botas escuras e cabelo preso.
Ícaro caminhava ao meu lado.
Isso incomodou Bianca mais que qualquer roupa.
O apresentador chamou o edital Guimarães.
O telão mostrou Cidade Fluida com o nome de Bianca.
Meu estômago virou pedra.
Bianca subiu ao palco.
Ela agradeceu aos professores.
A primeira frase saiu perfeita.
Perfeita demais.
Era a minha voz.
O auditório ficou suspenso.
Alguns alunos levaram a mão à boca.
No chat da transmissão, as mensagens correram.
Diziam que Bianca era Sereia.
Diziam que Caio estava certo.
Eu fiquei sentada.
Ícaro não se mexeu.
Bianca continuou com frases tiradas do meu caderno.
Na página 17, eu escrevera que beleza podia nascer sob pressão.
Ela repetiu a frase como se soubesse o peso dela.
Então o telão lateral mudou.
Não houve explosão.
Não houve truque.
Apareceu um relatório autorizado de integridade de áudio.
Os recibos vieram primeiro.
Depois os arquivos enviados.
Depois a comparação entre a gravação original de Sereia e a camada sintética usada no microfone.
As palavras eram técnicas, mas o constrangimento era simples.
Bianca estava falando com a minha voz.
O microfone chiou.
Por meio segundo, a cópia falhou.
O timbre real dela apareceu por baixo da minha voz.
Caio perdeu a cor.
Bianca apertou o pedestal.
“Isso é falso.”
Eu levantei.
Não precisei gritar.
“Bianca, se queria minha voz, devia ter treinado a dizer a verdade com a sua.”
A frase atravessou o auditório.
No telão, o chat enlouqueceu.
Mariana é a Sereia.
Caio chamou a Sereia de rata.
Bianca roubou a voz.
Bianca respirou como se procurasse outra máscara.
“Mesmo que houvesse um erro no áudio, Cidade Fluida é meu.”
“Obrigada”, eu disse.
Subi ao palco com o microfone reserva.
Ícaro ficou na plateia.
Ele deixou que todos vissem que a vingança era minha.
Abri a primeira pasta.
Meus croquis apareceram no telão.
Havia datas, versões, anotações e gravações feitas na biblioteca.
Cada arquivo era anterior ao suposto primeiro rascunho de Bianca.
Depois veio o vídeo da república.
Bianca derramando café sobre a maquete.
A plateia murmurou.
Ela tentou sorrir.
“O espaço era comum.”
“Você tem esse hábito curioso”, respondi.
“Destrói prova e chama de acidente.”
O curador Raul Guimarães se levantou na primeira fileira.
Ele tinha olhos de quem já tinha visto fraude com sapato caro.
“Senhorita Bianca”, ele disse, “explique a camada central de sustentação.”
Bianca abriu a boca.
Nada saiu.
Caio olhou para o chão.
O curador insistiu.
“Por que a plataforma superior está deslocada em três graus na versão corrigida?”
Bianca tocou o colar.
“O conceito fala de harmonia.”
“Isso é folder”, disse Raul.
“Eu perguntei sobre estrutura.”
O auditório ficou imóvel.
Eu respondi.
“O deslocamento afasta a carga do eixo central durante fluxo intenso de pedestres.”
Troquei o slide.
“A versão roubada não tem a segunda malha de tensão.”
Olhei para Bianca.
“Da próxima vez que roubar uma cidade, confira se ela fica em pé.”
O som que veio da plateia não foi riso puro.
Foi reconhecimento.
Bianca segurou o púlpito.
“Eu precisava dessa bolsa.”
“Então devia ter construído um futuro.”
Ela tentou chorar.
Ninguém correu para abraçá-la.
Caio deu um passo para longe.
Ele sempre reconhecia um escândalo quando podia manchar a própria roupa.
“Sereia, eu fui manipulado”, ele disse.
Eu virei para ele.
O telão mudou de novo.
A live antiga apareceu.
A voz dele encheu o auditório.
“Essa rata de moletom nunca podia ser a Sereia.”
Ele engoliu em seco.
“Eu não sabia quem você era.”
“Sabia sim.”
Minha voz não tremeu.
“Você só achou que eu era segura para machucar.”
Bianca riu, fina e quebrada.
“Não faz o inocente, Caio.”
Ele se virou para ela.
“Você disse que o projeto era seu.”
“E você acreditou porque gostava da história mais bonita.”
Os dois começaram a se acusar no palco que haviam planejado conquistar.
Eu abaixei o microfone por um segundo.
Ali estava a devolução mais honesta.
Eles estavam entregando um ao outro.
Raul encerrou a participação de Bianca no edital.
A coordenação anunciou uma investigação disciplinar.
Depois ele se voltou para mim.
“Mariana, sua versão corrigida está pronta?”
“Está.”
“Então apresente.”
Eu apresentei.
Sem voz roubada.
Sem moletom escondendo minha boca.
Expliquei a Cidade Fluida desde a primeira margem rabiscada na biblioteca.
Mostrei as pontes vivas, os jardins suspensos e a malha invisível que distribuía peso.
A sala ficou silenciosa.
Era o silêncio certo.
O tipo de silêncio que escuta.
Quando terminei, Raul ficou de pé.
Os professores foram depois.
A plateia levantou em ondas.
Bianca permaneceu ao lado do púlpito, branca como o vestido.
Caio não sabia onde colocar as mãos.
A bolsa Guimarães passou para meu nome naquela noite.
A investigação tirou Bianca das submissões do semestre.
Os arquivos da equipe de voz chegaram à comissão na manhã seguinte.
Havia recibos, mensagens e amostras com meu timbre separado por pasta.
Bianca tentou dizer que era pesquisa acadêmica.
A banca perguntou por que a pesquisa tinha meu nome salvo como alvo.
Ela não respondeu.
Do lado dos jogos, a queda de Caio foi ainda mais rápida.
O clipe do duelo voltou a circular junto com a fala dele na gala.
A equipe removeu Caio da liderança.
Os patrocinadores do canal pediram silêncio público até a apuração terminar.
Ele descobriu tarde que reputação também tem estrutura.
Sem base, desaba.
Ele me mandou vinte e seis mensagens.
A primeira dizia que ele não sabia que eu era incrível.
Apaguei antes da segunda linha.
Depois vieram as mensagens indiretas.
Amigos dele perguntaram se eu não podia salvar o canal, só por educação.
Uma colega de Bianca pediu que eu retirasse o vídeo da maquete, porque aquilo destruiria uma carreira.
Eu perguntei se minha carreira molhada contava.
Ninguém soube responder.
Esse era o problema de gente como Caio.
Eles só se arrependem quando a pessoa ferida vira prova de valor.
Naquele mesmo dia, minha orientadora abriu a porta do laboratório e deixou a sala vazia para mim.
Ela não fez discurso.
Só colocou novas chapas de papel cartão na bancada.
Ao lado, deixou uma régua metálica e um bilhete sem assinatura.
Dizia apenas que a Cidade Fluida ainda precisava ficar de pé no mundo real.
Foi a primeira ajuda que não tentou tomar o centro da história.
Uma semana depois, voltei ao quinto andar.
A biblioteca parecia igual.
As pessoas não.
Ninguém falou “rata” em voz alta.
Uma menina da janela veio pedir desculpa por ter rido no chat.
Eu disse “tudo bem” sem entregar perdão.
Ícaro apareceu com café e deixou o copo longe dos papéis.
Colocou uma caixinha transparente na mesa.
Dentro havia um arco da maquete destruída.
Ele tinha limpado, secado e reforçado com uma pequena peça prateada.
“Por quê?” perguntei.
“Porque você construiu.”
Ele olhou para mim, não para a lenda online.
“E uma parte devia sobreviver sem precisar servir de prova.”
Minha garganta fechou.
Naquela noite, entrei ao vivo como Sereia.
A Nebulosa Rainha apareceu no jogo, com a adaga simples presa na cintura.
Milhões entraram.
O chat pediu meu rosto.
Outros disseram que minha voz bastava.
Eu liguei o microfone.
“Vocês quiseram ver meu rosto para diminuir minha voz.”
O chat parou.
“Mas minha voz nunca foi máscara.”
Respirei.
“Era aviso.”
Ícaro entrou no canal.
“Ordens, comandante?”
Olhei para a maquete corrigida brilhando ao lado do notebook.
“Hoje a gente invade.”
A partida começou.
Sem Caio.
Sem Bianca.
Sem voz roubada.
Eu não precisava mais desaparecer para ser ouvida.
Ratos sobrevivem às armadilhas; rainhas aprendem a montá-las.