A Carta Que Fez Uma Cidade Se Calar Diante Da Mulher Expulsa-Neyney

O fogão estava frio havia três dias.

Não porque a lenha tivesse acabado.

Lenha havia.

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O que faltava era motivo.

O reverendo Samuel Brent sabia que isso pareceria pecado se dissesse em voz alta, então não dizia.

Apenas deixava o fogo morrer, deixava a cinza se acumular, deixava a casa pastoral ficar gelada o suficiente para parecer honesta.

A igreja, pelo menos, não fingia conforto.

Naquela noite, ele estava sentado no terceiro banco da frente, dentro da própria capela escura, com o casaco fechado por cima de uma camisa que precisava ser trocada.

O vento raspava nas paredes de madeira como unhas pacientes.

Em seu colo, a Bíblia estava aberta no livro de Jó.

Samuel não lembrava de ter aberto ali.

Isso significava que tinha dormido no banco outra vez.

Também significava que a casa onde Margaret havia dobrado lençóis, guardado geleia e cantado baixinho perto da janela continuava sendo um lugar grande demais para um homem sozinho.

Margaret estava morta havia onze meses.

A cidade chamava aquilo de luto.

Samuel já não tinha certeza de que fosse uma palavra grande o bastante.

Luto era o que as pessoas respeitavam no funeral, quando baixavam a voz, apertavam sua mão e diziam que Deus tinha seus caminhos.

O que veio depois era menos nobre.

Era a xícara que ele parava de usar porque ela tinha preferido aquela.

Era o lado da cama que ele evitava olhar.

Era a sopa deixada na varanda por mulheres piedosas que não sabiam que ele a jogava fora porque o cheiro de comida quente lembrava que ele deveria continuar vivo.

No primeiro mês, a congregação foi gentil.

No terceiro, foi cuidadosa.

No sexto, começou a ficar impaciente com a própria impotência.

Depois de um tempo, as pessoas gostam que a dor dos outros tenha boa postura.

Querem que ela se levante, agradeça e volte a servir café depois do culto.

Samuel não conseguia.

Então elas passaram a aconselhá-lo em vez de acompanhá-lo.

Ele preferia a igreja fria.

A batida veio às oito e meia.

Três pancadas firmes na porta lateral.

Não havia timidez nelas.

Havia fim de estrada.

Samuel ficou imóvel por um segundo, ouvindo o vento e a madeira, como se pudesse fingir que não escutara.

Então se levantou com dificuldade e atravessou a nave.

Quando abriu a porta, encontrou uma mulher no degrau.

Ela talvez tivesse vinte e cinco anos.

O frio, porém, tinha envelhecido o rosto dela de um jeito que não pertencia à idade.

O casaco era de homem, largo demais nos ombros, pesado demais para o corpo estreito.

As botas eram botas de cidade, finas, encharcadas na ponta, inadequadas para lama, estrada e noite.

O cabelo preso às pressas já tinha desistido de parecer arrumado.

Nos braços, ela segurava uma bolsa de lona.

Era o tipo de bolsa que uma pessoa leva quando não sabe se terá permissão para voltar pelo resto.

Ela não chorava.

Samuel percebeu isso antes de qualquer outra coisa.

Seu rosto estava seco, atento, quase calmo.

Não era a calma de quem está em paz.

Era a calma de quem passou do pânico para a parte prática do desastre.

“É o pastor?”, ela perguntou.

“Sou.”

“Meu nome é Clara Holt. Cheguei na diligência da tarde. Três estabelecimentos me mandaram embora esta noite.”

Ela disse isso sem pedir pena.

Samuel conhecia homens que faziam grandes discursos por ofensas menores.

Clara apenas informava.

“E está pedindo abrigo”, ele disse.

“Estou pedindo a igreja.”

Ele abriu mais a porta.

Ela entrou sem encostar no batente.

Movia-se como alguém que já tinha aprendido a não ocupar espaço demais.

Parou no centro da nave e olhou ao redor.

A igreja de Harrow’s Creek não era bonita de um jeito que impressionasse viajantes.

Não tinha vitrais, mármore, banco entalhado nem torre alta.

Tinha madeira, vidro simples, uma cruz, um fogão de ferro e bancos gastos por gente que vinha ali todos os domingos pedir misericórdia de um jeito que raramente sabia praticar na segunda-feira.

“Está frio”, Clara disse.

“Eu sei. Tenho negligenciado o fogão.”

Samuel fechou a porta e foi buscar lenha.

Não explicou por que o fogo estava apagado.

Algumas ruínas não melhoram quando recebem nome.

Enquanto ele acendia o fogão, Clara continuou de pé, observando cada gesto.

Não como uma mulher desconfiada por natureza.

Como uma mulher que aprendeu que bondade muitas vezes vem com nota de cobrança.

Quando a chama finalmente pegou, Samuel encontrou dois cobertores no baú da sacristia, uma panela para água e o último café que havia comprado duas semanas antes.

Colocou tudo perto dela.

Clara olhou para os objetos, depois para ele.

“Obrigada.”

“Não precisa agradecer por calor.”

Ela deu algo parecido com um sorriso.

“Homens costumam discordar.”

Samuel não respondeu.

Havia respostas que pareciam defesa, e ele não queria se defender de uma dor que não era sua.

“De onde veio antes daqui?”, perguntou.

“Mineral Flat. Antes disso, Ogden.”

“Está indo para algum lugar específico?”

Clara passou a mão pela alça da bolsa.

“Eu estava.”

“E agora?”

“Agora estou tentando não dormir na rua.”

A simplicidade da frase apertou alguma coisa dentro dele.

Samuel havia pregado sobre estrangeiros, viúvas e órfãos durante anos.

Era mais fácil quando os necessitados permaneciam nas Escrituras, distantes, vestidos de linguagem antiga.

Era outra coisa vê-los no degrau da sua porta, com botas molhadas e dedos pálidos de frio.

“O que lhe disseram nos lugares que recusaram abrigo?”, ele perguntou.

Ela ergueu os olhos.

“O senhor ainda não sabe?”

“Só o que vi.”

Clara ficou quieta por tempo suficiente para o fogo estalar duas vezes.

Então disse:

“Não sou casada.”

Samuel esperou.

“Estou esperando um filho.”

Ele já havia notado.

O corpo dela tinha aquele cuidado involuntário de quem carrega peso por dentro.

Mas notar algo não dá a uma pessoa o direito de arrancar a verdade da boca de outra.

“De quanto tempo?”, ele perguntou.

“Cinco meses, perto disso. Em Mineral Flat, não consegui médico sem meu marido presente. E meu marido foi embora em agosto.”

“Foi embora.”

“Partiu. Sumiu. Escolheu não estar mais onde eu estava.”

Ela se sentou no banco próximo ao fogão.

O calor começava a alcançar seus sapatos molhados.

“Nós não combinávamos”, continuou. “Eu levei um ano para entender. Ele levou dois meses para oficializar.”

“Ele é o pai da criança?”

“É.”

“E sabe?”

“Sabe.”

Clara abriu a bolsa, mas não tirou nada ainda.

“Mandou uma carta pelo advogado dele em 3 de setembro. Dizia que estava disposto a fazer um acordo.”

Samuel observou o rosto dela enquanto falava.

Não havia vergonha ali.

Havia raiva contida por educação.

“E o que significava esse acordo?”, ele perguntou.

“Significava dinheiro para eu ir embora. Dinheiro para ficar quieta. Dinheiro para não tornar inconveniente o fato de que ele tinha uma esposa grávida.”

“Você aceitou?”

“Não.”

Ela finalmente tirou um envelope dobrado e gasto.

As bordas estavam amassadas.

O papel parecia ter sido aberto e fechado muitas vezes.

“Talvez eu tenha sido imprudente”, disse Clara. “Tenho dificuldade em ser prática quando o preço é minha dignidade.”

Samuel recebeu o envelope apenas quando ela ofereceu.

Não abriu.

O gesto pareceu surpreendê-la.

“Muita gente teria lido sem perguntar”, ela disse.

“Muita gente confunde necessidade com permissão.”

Clara baixou os olhos.

O silêncio entre eles não era confortável, mas pela primeira vez naquela noite não era ameaça.

Samuel colocou mais lenha no fogão.

A igreja começou a aquecer de verdade.

O frio preso nas paredes por três dias encontrou resistência.

Era um pequeno milagre doméstico.

“O que a trouxe a Harrow’s Creek?”, ele perguntou.

“Uma professora.”

Clara segurou a xícara de café com as duas mãos.

“Adelaide Marsh. Ela me ensinou quando eu tinha nove anos. Uma vez me disse que, se algum dia eu precisasse de uma porta para bater, a dela seria essa porta.”

Samuel sentiu o peso da frase antes que Clara terminasse.

“Ela morreu em setembro”, disse ele.

“Descobri no escritório da diligência.”

“Sinto muito.”

“Eu também.”

Clara olhou para a janela escura.

“O cocheiro disse que havia um pastor aqui conhecido por ser decente. A palavra dele foi decente, não bondoso. Achei mais confiável.”

Samuel quase sorriu.

“O que decente significa para você, vindo de um cocheiro?”

“Um homem que não fala demais e não cobra para ficar calado.”

“É um padrão baixo.”

“Estou viajando há três semanas. Revisei meus padrões.”

Antes que Samuel pudesse responder, outra batida veio à porta.

Desta vez, o som era diferente.

A primeira batida tinha sido necessidade.

A segunda era julgamento.

Samuel se levantou.

Clara também começou a levantar, mas ele fez um pequeno gesto com a mão para que permanecesse onde estava.

Quando abriu a porta, três homens estavam do lado de fora.

O dono da hospedaria vinha à frente, segurando uma lanterna.

Atrás dele, dois diáconos de Samuel pareciam desconfortáveis com a própria coragem.

E mais atrás, na rua, algumas silhuetas paradas mostravam que a cidade já tinha começado a se reunir antes mesmo de entender por quê.

“Reverendo”, disse o dono da hospedaria. “Soubemos que ela veio para cá.”

“Veio.”

“Então o senhor precisa mandá-la embora.”

Samuel não se moveu.

“Por quê?”

O homem piscou, como se a pergunta fosse insolente.

“Porque não é adequado.”

“Frio é adequado?”

Um dos diáconos pigarreou.

“Pastor, ninguém quer crueldade. Mas a ata da reunião do conselho, de 14 de outubro, foi clara sobre o uso da igreja para casos que possam trazer escândalo.”

Samuel olhou para ele.

“Você trouxe uma ata para justificar deixar uma mulher grávida na rua?”

O homem ficou vermelho.

“Estou dizendo que há procedimentos.”

Procedimento.

A palavra caiu dentro da igreja como uma pedra pequena.

Samuel pensou em todas as vezes em que pessoas tinham usado procedimento para lavar as mãos antes de negar ajuda.

O dono da hospedaria se inclinou um pouco.

“Meu escrivão registrou a recusa dela às 7h12. Posso testemunhar que ela não deu explicação satisfatória sobre marido, destino ou meios. Ninguém aqui quer problema, reverendo.”

“Ninguém aqui quer responsabilidade”, Samuel respondeu.

Atrás dele, Clara estava de pé.

“Eu posso ir”, disse ela.

A frase foi baixa.

Treinada.

Ela não soou como escolha.

Soou como hábito.

Samuel não se virou.

“Não.”

Os homens do lado de fora ficaram imóveis.

“O que disse?”, perguntou o dono da hospedaria.

Samuel abriu a porta mais um pouco.

O calor do fogão tocou o ar frio da rua.

“Ela é minha hóspede.”

O dono da hospedaria soltou uma risada curta.

“Uma mulher grávida, sem marido, dormindo numa igreja?”

“Uma mulher com frio.”

O primeiro diácono olhou para Clara como se olhar diretamente para ela pudesse contaminá-lo.

“Pastor, pense no púlpito.”

Samuel pensou.

Pensou em todos os sermões sobre graça.

Pensou em Margaret, que antes de morrer lhe dissera que as pessoas mais religiosas de Harrow’s Creek costumavam ter medo de misericórdia quando ela pedia algo inconveniente.

Pensou no livro de Jó aberto no banco.

Pensou no fogão frio.

Pensou na porta que Clara tinha procurado e encontrado fechada pela morte de uma professora.

“Estou pensando no púlpito”, disse ele.

O segundo diácono baixou a voz.

“Amanhã teremos reunião formal. Assinaturas. Testemunhas. O senhor entende o que está arriscando?”

Samuel sentiu algo se mover dentro do peito.

Não era alegria.

Não era cura.

Era a primeira coisa viva que aparecia em muito tempo.

“Entendo.”

“E ainda assim?”

Samuel olhou para a rua, para as lanternas, para a pequena multidão esperando permissão para transformar uma mulher em aviso.

“Ela fica.”

Na manhã seguinte, às 8h17, o sino da igreja tocou antes do culto.

Esse detalhe importou porque Harrow’s Creek gostava de fingir que tudo o que fazia era ordem.

Quando o sino tocava fora de hora, a cidade entendia que algo havia saído do lugar.

As pessoas chegaram em grupos.

Mulheres com luvas abotoadas.

Homens com chapéus nas mãos.

Crianças puxadas pelos ombros para não cochicharem alto.

O dono da hospedaria sentou-se na segunda fileira.

Os diáconos ocuparam seus lugares com rostos solenes.

Todos esperavam ver Clara sendo conduzida para fora.

Em vez disso, encontraram Samuel de pé ao lado dela.

Ela estava no primeiro banco, ainda com o casaco masculino, a bolsa de lona aos pés.

Seu rosto estava mais pálido à luz da manhã.

Ainda assim, ela não abaixava a cabeça.

Samuel não segurava a Bíblia.

Segurava o envelope.

Um murmúrio correu pela igreja.

Ele esperou até o som se gastar.

Depois disse:

“Antes que qualquer homem nesta sala use a palavra escândalo, vamos ler o que foi escrito por alguém que conhece escândalo muito melhor do que ela.”

O dono da hospedaria se ajeitou no banco.

Um dos diáconos franziu o rosto.

Samuel abriu o papel.

A primeira linha dizia que Clara Holt era esposa legal de Nathaniel Holt, residente anterior de Mineral Flat.

A segunda linha informava que Nathaniel reconhecia a possibilidade de gravidez.

A terceira oferecia quantia em dinheiro mediante deslocamento imediato e compromisso de não procurar assistência pública, religiosa ou legal que pudesse comprometer o nome dele.

A igreja ficou muito quieta.

Clara não olhava para ninguém.

Estava olhando para o fogão.

Como se precisasse se lembrar de que aquela sala, pelo menos por enquanto, ainda tinha calor.

Samuel continuou.

“O documento foi datado em 3 de setembro. O envelope tem registro de envio por advogado. Há uma segunda página com instruções para que a senhora Holt saísse de Mineral Flat antes que a gravidez se tornasse pública.”

Uma mulher no fundo levou a mão à boca.

O dono da hospedaria ficou imóvel.

O diácono que falara em procedimentos na noite anterior abriu o hinário, fechou, depois abriu de novo, sem ler nada.

Culpa às vezes procura objeto neutro para encarar.

Samuel baixou o papel.

“Ontem à noite, alguns homens vieram aqui preocupados com a reputação desta igreja.”

Ninguém respirou alto.

“Hoje eu estou preocupado com a alma dela.”

Clara fechou os olhos por um instante.

Não como quem desmaia.

Como quem finalmente ouve alguém dizer uma frase que não a reduz ao pior boato sobre sua vida.

O primeiro diácono se levantou.

“Reverendo, mesmo assim, há regras.”

“Há.”

“Uma igreja não pode simplesmente acolher qualquer pessoa sem considerar consequências.”

Samuel olhou para ele por tempo suficiente para o homem se arrepender de ter começado.

“E uma igreja que considera consequências antes de considerar misericórdia talvez tenha esquecido por que existe.”

O murmúrio voltou, maior.

Desta vez, não era concordância nem reprovação.

Era desconforto.

O tipo de desconforto que aparece quando uma multidão percebe que talvez tenha ido longe demais, mas ainda deseja que alguém a absolva sem pedir confissão.

Clara se levantou.

O movimento fez várias pessoas olharem para sua barriga.

Ela percebeu.

Samuel percebeu que ela percebeu.

Por um segundo, a vontade dele foi pedir que todos saíssem.

Mas Clara segurou a bolsa de lona com uma das mãos e falou antes dele.

“Eu não vim para esta cidade para trazer vergonha a ninguém.”

A voz dela era baixa, mas a igreja pequena carregou cada palavra.

“Vim porque uma mulher chamada Adelaide Marsh me disse, quando eu era criança, que havia portas que não se fechavam para quem precisava. Eu não sabia que ela tinha morrido.”

Algumas mulheres se entreolharam.

Adelaide Marsh tinha sido professora de muitas crianças ali.

Até morta, parecia mais decente do que os vivos reunidos naquele banco.

Clara continuou.

“Eu fui ao hotel. Fui à hospedaria. Fui a uma casa onde me mandaram pelos fundos e disseram que eu não devia ser vista na varanda. Quando bati nesta igreja, eu não pedi aprovação. Pedi uma noite sem frio.”

Ela respirou, e Samuel viu sua mão apertar a costura do casaco.

“Não vim pedir que gostassem de mim. Vim pedir que alguém admitisse que eu ainda sou uma pessoa.”

A frase ficou no ar.

E por mais que Harrow’s Creek fosse pequena, por mais que gostasse de ordem, reputação e banco marcado, ninguém encontrou resposta limpa para aquilo.

O segundo diácono sentou-se devagar.

Sua esposa, ao lado dele, começou a chorar sem fazer barulho.

O dono da hospedaria olhou para o chão.

Samuel dobrou o papel.

“Há outra questão”, disse ele.

O ar mudou de novo.

Clara olhou para ele, surpresa.

Samuel não havia contado à congregação o que ela lhe mostrara antes do sino tocar.

Havia uma segunda página.

E naquela segunda página, escrita por outra mão, estava a instrução que transformava abandono em algo mais frio.

Não era apenas um marido partindo.

Era um homem tentando organizar o apagamento de uma mulher antes que ela pudesse ser ouvida.

Samuel levantou a página.

“Na última linha, o advogado informa que, caso a senhora Holt recuse o acordo, seu marido está preparado para negar publicamente o casamento e questionar a paternidade da criança.”

Um som percorreu a igreja.

Dessa vez, foi horror.

Clara ficou rígida.

Ela sabia que a frase existia.

Ainda assim, ouvi-la em voz alta, diante de todos, era como ser ferida uma segunda vez com a mesma lâmina.

Samuel virou-se para ela.

“Peço perdão por ter lido isso diante deles.”

Clara engoliu em seco.

“Era isso que eles precisavam ouvir.”

O dono da hospedaria finalmente falou.

“Eu não sabia.”

A frase foi pequena demais para o estrago que tentava cobrir.

Samuel olhou para ele.

“Mas decidiu mesmo assim.”

O homem não respondeu.

Essa era a parte que doía.

A cidade não tinha precisado saber para condenar Clara.

Bastou imaginar.

Bastou gostar da própria imaginação.

Samuel colocou a carta sobre o púlpito.

Depois abriu a Bíblia, ainda marcada no livro de Jó.

Por um instante, todos esperaram um sermão.

O pastor, porém, não pregou.

“Na noite passada”, disse ele, “três homens me disseram que esta igreja correria risco se eu deixasse Clara Holt dormir perto de um fogão aceso.”

Ele olhou para os bancos.

“Eu passei onze meses sentado nesta sala, falando menos do que deveria, porque minha dor me convenceu de que eu não tinha mais nada a oferecer.”

Sua voz falhou apenas uma vez, no nome que não disse.

“Talvez eu estivesse errado.”

Clara olhou para ele.

Samuel respirou fundo.

“Se a cidade deseja uma reunião formal, terá uma reunião formal. Se deseja ata, terá ata. Se deseja testemunhas, olhe ao redor. Há testemunhas suficientes.”

O primeiro diácono fechou os olhos.

Samuel continuou:

“Que conste que, no dia seguinte à chegada de Clara Holt, grávida de cinco meses, portando carta datada de 3 de setembro e recusada por três estabelecimentos antes das 8h30 da noite, esta igreja decidiu se ela era problema a ser removido ou pessoa a ser protegida.”

O silêncio que veio depois não era vazio.

Era escolha.

A esposa do segundo diácono levantou-se primeiro.

Ela atravessou o corredor até Clara.

Por um segundo, Clara recuou, como quem espera outro toque disfarçado de correção.

Mas a mulher apenas tirou as próprias luvas e segurou as mãos dela.

“Minha casa tem um quarto”, disse.

Clara não respondeu.

Talvez não conseguisse.

Outra mulher se levantou.

Depois um homem.

Depois uma senhora que tinha conhecido Adelaide Marsh.

O movimento foi lento, desajeitado, imperfeito.

Não era redenção completa.

Cidades não se tornam boas em um minuto.

Mas às vezes uma cidade para de ser covarde por tempo suficiente para uma porta se abrir.

O dono da hospedaria ficou sentado.

Samuel não o humilhou.

Humilhação era a língua que a cidade tinha falado com Clara.

Ele não queria responder no mesmo idioma.

Quando o culto terminou, Clara continuou no banco da frente.

A bolsa de lona ainda estava no chão.

O fogão ainda estalava.

Samuel se aproximou devagar.

“Você tem opções agora”, disse ele.

Clara olhou para as pessoas conversando em voz baixa perto da porta.

“Opções me assustam mais do que estrada.”

“Por quê?”

“Estrada só exige que eu continue andando. Opções exigem que eu acredite que posso parar.”

Samuel sentou-se no banco ao lado, deixando espaço entre eles.

Durante muito tempo, não disseram nada.

Foi Clara quem quebrou o silêncio.

“O senhor não precisava ter feito isso.”

“Eu precisava.”

“Por minha causa?”

Samuel olhou para o púlpito, para a Bíblia aberta, para a luz entrando pelo vidro comum.

“Não só.”

Clara pareceu entender.

Nos meses seguintes, ela ficou na cidade.

Não foi simples.

Algumas portas se abriram.

Outras apenas fingiram.

Houve olhares na padaria, cochichos na saída do culto, mulheres que levavam sopa e faziam perguntas demais, homens que de repente encontravam motivos para atravessar a rua.

Samuel aprendeu que defender alguém uma vez é mais fácil do que continuar defendendo quando o escândalo vira rotina.

Clara aprendeu que aceitar ajuda não significa entregar o próprio valor à pessoa que ajuda.

Quando a criança nasceu, numa madrugada gelada de março, o sino da igreja não tocou.

Samuel estava no corredor da pequena casa onde Clara se hospedava, ouvindo o choro do bebê atravessar a porta.

Era um menino.

Clara o chamou de Thomas, por um irmão que havia perdido quando criança.

A cidade trouxe panos, leite, pão e conselhos.

Clara aceitou os três primeiros com gratidão cautelosa.

O quarto, nem sempre.

O marido nunca veio.

Mandou outra carta, meses depois, tentando negar o que já havia colocado no papel.

Dessa vez, Clara não leu sozinha.

Samuel, dois diáconos arrependidos e a professora nova da cidade estavam presentes quando ela dobrou a carta e disse que algumas pessoas só chamam de paz o momento em que ninguém mais consegue contestá-las.

Ela contestou.

Não com gritos.

Com registro.

Com cópias.

Com testemunhas.

Com a calma dura de quem já tinha sido quase apagada uma vez e não pretendia facilitar a segunda.

Um ano depois, a cidade que quis expulsá-la assistiu a Clara Holt entrar na igreja pelo corredor central, não como vergonha escondida, mas como mulher que escolhera ficar.

Samuel estava no altar.

Não houve pressa.

Não houve espetáculo.

Quem esperava romance bonito talvez não entendesse.

O que havia entre eles nasceu primeiro como abrigo, depois como respeito, depois como aquela forma silenciosa de amor que não tenta salvar alguém para se sentir santo.

Naquele dia, quando Samuel repetiu os votos, sua voz não pareceu a de um homem curado.

Pareceu a de um homem vivo.

Clara segurava Thomas no colo de uma vizinha, e o menino ria para a luz que entrava pelas janelas simples.

O mesmo vidro comum.

A mesma igreja.

Outra temperatura.

E muitos anos depois, quando pessoas contavam a história como se fosse sobre um pastor que se casou com a mulher que a cidade queria expulsar, Clara corrigia em voz baixa.

“Não”, dizia. “A história começou antes disso.”

Começou com um fogão frio.

Começou com uma porta.

Começou com uma cidade decidindo que reputação valia mais que uma pessoa.

E começou com um homem enlutado abrindo essa porta e dizendo, diante de todos:

“Ela é minha hóspede.”

Porque às vezes a misericórdia não chega parecendo milagre.

Às vezes ela chega parecendo uma mulher cansada, uma bolsa de lona no chão, uma carta dobrada na mão e uma igreja inteira obrigada a decidir se acredita mesmo naquilo que canta aos domingos.

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