Lívia acordou num quarto de hospital com a cabeça enfaixada, pontos no ombro e o celular aceso sobre a mesa. A primeira notícia mostrava Augusto sorrindo ao lado de Clara diante de um show de fogos que custara milhões de reais.
Leonardo, colega da faculdade, entrou com um ramo de mosquitinhos e uma pergunta que ela havia recusado na primeira vida.
— Você ainda vai desistir da mobilidade acadêmica?

Só dois alunos do curso tinham conseguido vaga em outra capital. Antes, Lívia perdera a chance para ficar perto de Augusto.
— Eu vou — respondeu, firme.
Leonardo segurou a mão dela, aliviado. Nesse instante, Augusto abriu a porta com Clara presa ao braço.
Ele expulsou Leonardo e deixou Clara oferecer um caldo de peixe que dizia ter preparado durante horas.
Lívia era gravemente alérgica. Augusto sabia disso desde a infância.
Quando ela hesitou, Clara encheu os olhos de lágrimas.
— Eu vim cuidar de você, e ainda assim você me rejeita?
Augusto endureceu.
— Pare de dificultar tudo. Beba e agradeça.
Lívia tomou cada colher. A garganta começou a arder antes de ele sair para atender uma ligação.
Sozinha com ela, Clara largou o sorriso e segurou seu pulso quando Lívia tentou alcançar o botão da enfermagem.
— Saia das nossas vidas.
A porta abriu quando Lívia reuniu força para empurrá-la.
Clara tropeçou, chorou, e Augusto acreditou no quadro que viu.
Lívia tentou dizer “alergia”, mas o ar já não passava.
— Você está fingindo outra vez — ele disse.
Então apontou para dois seguranças.
— Levem-na para a câmara fria da cozinha. Ela sai quando pedir desculpas.
Augusto conhecia o pânico que Lívia sentia do frio. Mesmo assim, virou o rosto.
A porta de aço fechou, e o clique da trava soou como uma sentença.
O frio atravessou o tecido fino da camisola antes que Lívia alcançasse o chão.
Ela se encolheu perto da parede, abraçando os próprios joelhos enquanto a respiração ficava mais curta.
A reação alérgica já havia espalhado manchas vermelhas pelo pescoço e pelo peito.
Dentro da câmara, o calor da alergia e o frio industrial disputavam seu corpo.
Seus dedos perderam a sensibilidade primeiro.
Depois, os lábios começaram a formigar.
Lívia tentou gritar, mas a garganta inchada produziu apenas um ruído seco.
Ela bateu na porta com a lateral da mão.
Nenhum dos seguranças respondeu.
Augusto havia dado uma ordem, e homens pagos para obedecer não pretendiam questioná-la.
O ar tinha cheiro de metal, caixas de alimentos embalados e desinfetante.
Cada respiração parecia menor que a anterior.
Lívia pressionou o pescoço, tentando forçar uma passagem para o ar.
A pressão não ajudou.
Seu corpo começou a tremer com tanta violência que os dentes bateram.
Foi então que uma lembrança antiga atravessou a escuridão.
Quando Lívia era criança, uma funcionária a encontrara presa numa câmara refrigerada de um clube.
Ela passara poucos minutos lá dentro, mas acordara vários dias seguidos gritando.
Augusto dormira no chão ao lado de sua cama durante uma semana.
Sempre que ela despertava, encontrava a mão dele apoiada perto do travesseiro.
— Eu estou aqui — ele dizia. — Ninguém vai fechar você lá dentro novamente.
Naquela época, Lívia acreditara em cada palavra.
Agora, fora Augusto quem mandara fechar a porta.
A lembrança seguinte veio acompanhada pelo som imaginário de um piano.
Aos treze anos, Lívia praticara até os dedos ficarem machucados.
Augusto retirara suas mãos das teclas e aplicara pomada em cada ferimento.
— Você não precisa tocar para agradar ninguém.
Ela sorrira, orgulhosa.
— Eu quero tocar para você.
Augusto ficara em silêncio antes de bagunçar seus cabelos.
Lívia transformara aquele gesto em uma declaração que nunca existira.
Aos quinze anos, ele reservara um parque de diversões para seu aniversário.
Ela descera de um brinquedo correndo e quase tropeçara.
Augusto a segurara pela cintura.
— Cuidado, Lívia.
A palavra ficara guardada como uma promessa.
Na câmara fria, ela finalmente compreendeu que cuidado e amor não eram a mesma coisa.
Augusto cuidara dela por dever, gratidão ao pai e talvez algum afeto familiar.
Foi Lívia quem transformou essa proteção em destino.
Ela havia causado uma tragédia na primeira vida tentando obrigá-lo a corresponder.
Na segunda, fizera tudo para libertá-lo.
Ele estava vivo.
Clara estava ao lado dele.
Talvez aquele fosse o preço que o destino cobrava.
Os olhos de Lívia começaram a fechar.
Sua testa encostou no piso gelado.
O frio deixou de doer por alguns segundos.
Essa ausência de dor a assustou menos do que deveria.
Do lado de fora, Leonardo ainda estava no hospital.
Ele descera até a recepção para confirmar os documentos da mobilidade acadêmica.
Ao retornar, viu os seguranças saindo do elevador de serviço sem Lívia.
Clara caminhava atrás deles, segurando o braço de Augusto e sorrindo discretamente.
Leonardo percebeu que aquele sorriso desapareceu assim que Augusto virou o rosto.
Ele também lembrou das manchas que surgiam no pescoço de Lívia antes de sua expulsão.
Leonardo perguntou a uma técnica de enfermagem onde ficava a paciente do quarto.
A profissional consultou o sistema e franziu a testa.
Lívia ainda constava como internada.
Ninguém havia autorizado sua saída do andar.
Leonardo correu até o elevador de serviço.
No subsolo, encontrou um segurança diante da porta da câmara fria.
— Onde está Lívia Duarte?
O homem bloqueou sua passagem.
— Ordem particular. Volte para o andar de cima.
— Ela tem alergia grave e estava sem conseguir respirar.
O segurança não mudou de posição.
— O senhor Ferraz disse que ela está fingindo.
Leonardo sentiu o medo se transformar em raiva.
Ele puxou o alarme de emergência instalado ao lado da porta.
O som atravessou a cozinha e o corredor de serviço.
Funcionários apareceram, seguidos por uma enfermeira e um médico plantonista.
O segurança tentou impedir a abertura.
— O senhor Ferraz proibiu.
O médico afastou a mão dele do trinco.
— Aqui dentro, quem decide sobre risco médico sou eu.
A trava foi liberada.
Quando a porta se abriu, uma faixa de luz alcançou o rosto imóvel de Lívia.
Leonardo foi o primeiro a entrar.
Ele se ajoelhou, tirou o próprio casaco e cobriu os ombros dela.
— Lívia, abra os olhos.
Ela não respondeu.
Seus lábios estavam azulados, e o pulso parecia quase impossível de encontrar.
O médico pediu uma maca, oxigênio e adrenalina.
Uma equipe chegou correndo pelo corredor.
A primeira injeção atingiu a coxa de Lívia enquanto a máscara era ajustada sobre seu rosto.
Seu corpo reagiu com um arquejo violento.
O monitor registrou batimentos instáveis.
— Temperatura corporal de trinta e dois graus — informou a enfermeira.
O médico examinou a garganta dela.
— Obstrução próxima de oitenta por cento.
Leonardo acompanhou a maca até o elevador.
— Ela comeu caldo de peixe.
— Quem ofereceu isso a uma paciente com alergia registrada?
Leonardo olhou para o segurança parado no corredor.
— A namorada de Augusto Ferraz ofereceu. Ele obrigou Lívia a beber.
A equipe levou Lívia diretamente para atendimento intensivo.
O médico estimou que restavam menos de dez minutos antes de uma parada cardíaca.
Leonardo ficou do lado de fora com as mãos sujas do piso da câmara.
Ele não ligou para Augusto.
Em vez disso, procurou a direção clínica e relatou cada detalhe.
Os registros do hospital confirmaram a alergia severa de Lívia.
Também mostraram quem havia autorizado a circulação dos seguranças pelo setor restrito.
Duas horas depois, Augusto voltou ao hospital.
Ele havia deixado Clara em sua cobertura, envolvida por mantas e cercada por funcionários.
Durante o trajeto, uma inquietação persistente pressionara seu peito.
Augusto lembrava dos olhos de Lívia quando deu a ordem.
Ela não parecia furiosa.
Parecia apavorada.
Ele chegou ao corredor da unidade intensiva e encontrou o médico-chefe diante da porta.
— Quero ver Lívia.
O médico não saiu do caminho.
— O senhor não está autorizado a entrar.
Augusto franziu a testa.
— Eu sou o contato responsável dela.
— O senhor é o homem que mandou uma paciente em choque anafilático para uma câmara fria.
Augusto ficou imóvel.
O médico entregou uma cópia do relatório.
— Leia.
No alto da página estava o nome de Lívia Duarte.
Abaixo, apareciam as palavras choque anafilático grave, hipotermia e risco imediato de morte.
O exame apontava concentração crítica de proteínas de peixe e histamina em 450 ng/mL.
Augusto apertou o papel.
— Isso está errado.
— A garganta dela estava oitenta por cento fechada.
O médico apontou para a porta da unidade.
— Sem a intervenção do colega, ela teria morrido em menos de dez minutos.
Augusto leu o documento novamente.
As letras continuaram no mesmo lugar.
— Ela estava tentando empurrar Clara.
— Ela tentava alcançar ajuda enquanto sufocava.
O médico manteve a voz baixa.
— A alergia consta no prontuário desde a infância.
Augusto sabia disso sem precisar consultar documento algum.
Durante mais de uma década, nenhum peixe entrara em sua casa.
Cozinheiros recebiam orientações especiais antes mesmo de conhecer Lívia.
Em viagens, Augusto telefonava pessoalmente aos restaurantes.
Uma vez, interrompera um almoço empresarial porque um prato fora servido com o utensílio errado.
Naquele quarto, porém, Clara havia segurado uma tigela diante de Lívia.
Lívia olhara para Augusto antes de beber.
Ele interpretara aquele olhar como desafio.
Agora reconhecia o que havia nele.
Despedida.
— Onde ela está?
— Estabilizada, mas ainda sob observação.
O médico recolheu o relatório das mãos dele.
— A direção abriu uma investigação interna e comunicou o caso às autoridades competentes.
Augusto não reagiu à ameaça de investigação.
— Ela perguntou por mim?
— Pediu que o senhor não entrasse.
A resposta atingiu Augusto com mais força que qualquer acusação.
Ele recuou até a parede.
Pela primeira vez, não havia uma ordem capaz de abrir aquela porta.
Augusto retornou à cobertura antes do amanhecer.
Clara estava sentada no sofá com uma xícara entre as mãos.
— Como ela está?
A pergunta saiu doce, mas seus olhos não demonstraram preocupação.
Augusto colocou o relatório sobre a mesa.
— Lívia quase morreu.
Clara desviou o olhar.
— Eu não sabia que ela tinha alergia.
— Você ouviu sobre isso mais de uma vez.
Clara apertou a xícara.
— Talvez eu tenha esquecido.
Augusto se lembrou do modo como ela segurara o recipiente térmico.
Também lembrou que Clara insistira para Lívia terminar cada colher.
— E por que você segurou o pulso dela?
O rosto de Clara mudou por um instante.
— Ela tentou me atacar.
— Você disse isso antes ou depois de impedir que ela chamasse a enfermagem?
Clara levantou-se rapidamente.
— Está acreditando naquela garota outra vez?
Augusto observou a mulher que imaginara amar durante anos.
A doçura dela agora parecia uma superfície fina sobre algo que ele nunca examinara.
— Nosso relacionamento acabou.
Clara ficou pálida.
— Você me pediu em namoro ontem.
— Ontem eu também abandonei Lívia sob um lustre quebrado.
Augusto retirou o anel que havia comprado naquela manhã.
— Hoje, quase mandei enterrá-la.
Clara tentou tocar seu braço.
Ele recuou.
— Saia da minha casa.
— Foi ela quem preparou tudo para me afastar de você.
Augusto não respondeu.
Mesmo que Lívia houvesse cometido erros, Clara colocara alimento perigoso em suas mãos.
E ele transformara aquela tigela numa ordem.
Funcionários levaram Clara para a casa de sua família no interior naquela mesma manhã.
Augusto voltou ao hospital depois de dois dias sem dormir.
Lívia já estava num quarto comum.
Leonardo permanecia perto da janela, descascando uma laranja sobre um prato de papel.
Na mesa havia a carta de aprovação para o programa em Curitiba.
Também estavam ali as passagens e os documentos da residência estudantil.
O voo partiria às oito da noite seguinte.
Lívia ainda tinha marcas avermelhadas no pescoço.
Sua voz saía rouca, mas cada palavra era clara.
Quando Augusto apareceu na porta, Leonardo levantou-se.
— Ela não quer ver o senhor.
— Está tudo bem, Léo — disse Lívia. — Dê alguns minutos para nós.
Leonardo estudou o rosto dela antes de concordar.
Ao passar por Augusto, não tentou esconder a repulsa.
A porta se fechou.
Augusto caminhou até o pé da cama.
O terno estava amarrotado, e a barba começava a aparecer.
— Lívia.
Ela aguardou.
— Eu li os exames.
— Certo.
— Fui até a cobertura e confrontei Clara.
Lívia voltou os olhos para a janela.
— Ela sabia — continuou Augusto. — Terminei tudo e mandei que fosse embora.
— Isso não muda o que aconteceu.
Augusto segurou a grade metálica da cama.
— Por que você bebeu?
Lívia demorou alguns segundos para responder.
— Porque você mandou.
Ele abriu a boca, mas ela continuou.
— Você disse que Clara estava cuidando de mim e que eu deveria agradecer.
Augusto baixou a cabeça.
— Eu não sabia que ela faria isso.
— Você sabia que eu tinha alergia.
— Eu esqueci naquele momento.
— Não.
Lívia olhou diretamente para ele.
— Você escolheu acreditar que qualquer sofrimento meu era uma encenação.
Augusto apertou a grade com mais força.
— Eu estava com raiva.
— E usou sua raiva para decidir se eu merecia respirar.
Ele fechou os olhos.
Aquela frase removeu a última defesa que ainda tentava construir.
— Perdoe-me.
Lívia não respondeu.
— Vamos para casa — pediu Augusto. — Eu cuidarei de você pessoalmente.
Ela apontou para os documentos na mesa.
— Vou para Curitiba amanhã.
Augusto pareceu não compreender.
— Você não pode viajar nesse estado.
— O médico autorizou depois da avaliação de amanhã.
— Então eu cancelo o programa.
Lívia soltou um suspiro cansado.
— O senhor não pode cancelar nada, senhor Ferraz.
O tratamento formal o fez recuar.
— Não me chame assim.
— É o seu nome.
— Para você, eu sempre fui Augusto.
— Para mim, você também foi alguém que prometeu nunca me fechar no frio.
O silêncio seguinte não trouxe conforto.
Augusto olhou para as próprias mãos.
— Eu vou financiar seus estudos onde você quiser.
— Meu pai deixou um fundo patrimonial em meu nome.
Lívia indicou uma pasta sobre a mesa.
— O banco já autorizou mensalidades, moradia e despesas acadêmicas.
— Você ainda não completou vinte anos.
— A cláusula permite liberação antecipada para educação.
Augusto sabia que aquilo era possível.
Ele apenas nunca imaginara que Lívia usaria o dinheiro para sair de seu alcance.
— A casa está esperando você.
— Não é mais minha casa.
— Posso reformar o segundo andar inteiro.
— Não preciso de um andar novo.
— Os carros continuam na garagem.
— Venda todos.
Augusto respirou com dificuldade.
— Diga o que você quer, e eu darei.
Lívia fitou o homem que fora seu centro durante tantos anos.
Na primeira vida, teria pedido amor.
Na segunda, só queria distância.
Às vezes, amadurecer é parar de implorar por um lugar e construir outro.
— Quero que respeite minha decisão.
Augusto balançou a cabeça.
— Não posso deixar você ir assim.
— Foi o senhor quem me ensinou que existe uma diferença de dez anos entre nós.
Ela manteve a voz serena.
— Disse que meus sentimentos eram uma fantasia infantil.
— Eu disse aquilo porque precisava estabelecer limites.
— E estava certo.
Augusto ergueu o rosto.
— Eu cresci.
Ele caiu de joelhos ao lado da cama.
As lágrimas apareceram sem qualquer elegância.
— Não faça isso comigo.
Lívia sentiu uma antiga parte de si reagir àquela imagem.
Durante anos, teria entregado tudo para ouvir aquele pedido.
Agora, ele chegava tarde demais.
— A casa está vazia sem você — disse Augusto.
— Clara pode preencher o espaço.
— Eu não quero Clara.
Lívia percebeu a crueldade involuntária daquela resposta.
Augusto ainda falava de pessoas como soluções para o próprio vazio.
— Então aprenda a ficar sozinho.
Ele apoiou a testa na lateral do colchão.
— Eu cuidei de você desde que era pequena.
— Eu sei.
Lívia tocou os cabelos dele com delicadeza.
Era o mesmo gesto que Augusto usava quando ela terminava uma apresentação de piano.
Não havia romance naquele toque.
Havia gratidão e encerramento.
— Obrigada por ter me criado, tio Augusto.
Ele levantou o rosto ao ouvir o antigo título.
— Não me chame de tio.
— Foi o lugar que o senhor escolheu para si.
A mão dela se afastou.
— Seu dever acabou.
Augusto permaneceu no chão até Leonardo bater na porta.
— Lívia precisa descansar.
Ela não precisou pedir novamente.
Augusto se levantou, ajeitou o paletó e caminhou até a saída.
Antes de fechar a porta, olhou para trás.
Lívia já conversava com Leonardo sobre o horário do voo.
Na manhã seguinte, o médico confirmou que ela poderia viajar com acompanhamento e medicação de emergência.
Leonardo organizou os documentos e guardou as canetas de adrenalina na bagagem de mão.
Ele não tentou decidir por ela.
Apenas perguntava onde cada coisa deveria ficar.
Augusto enviou um carro ao hospital.
Lívia recusou.
Ela saiu pela entrada principal ao lado de Leonardo e entrou num veículo solicitado por aplicativo.
No trajeto, passou diante do restaurante onde o lustre havia caído.
As janelas estavam fechadas para manutenção.
Nenhuma rosa permanecia na calçada.
No aeroporto, Leonardo percebeu que Lívia observava o portão de embarque sem piscar.
— Está com medo?
— Estou.
— Quer voltar?
Lívia pensou na pergunta.
Augusto teria dito que ela precisava voltar.
Leonardo oferecia uma escolha.
— Não.
— Então vamos juntos.
Ela entrou no avião sem olhar para trás.
Os primeiros meses em Curitiba foram difíceis.
Lívia acordava assustada quando ouvia portas metálicas ou entrava em ambientes muito frios.
Também carregava uma caneta de adrenalina em cada bolsa.
Leonardo nunca tratou essas precauções como exagero.
Ele perguntava sobre ingredientes antes de qualquer refeição e respeitava a resposta dela.
No começo, Lívia desconfiava de toda gentileza.
Ela esperava que cada cuidado viesse acompanhado por uma cobrança futura.
Leonardo não cobrava.
Quando ela precisava ficar sozinha, ele se afastava.
Quando precisava de companhia, ele sentava perto sem fazer perguntas.
A relação cresceu devagar.
Primeiro vieram os trabalhos divididos na biblioteca.
Depois, cafés após as aulas e caminhadas até a residência estudantil.
Mais tarde, Leonardo apresentou Lívia aos pais durante uma chamada de vídeo.
Ninguém falou em destino ou dívida.
Dois anos se passaram.
Lívia concluiu a etapa principal do curso e começou uma pesquisa com Leonardo.
Numa tarde de outono, eles saíram do campus carregando cadernos e duas xícaras de chocolate quente.
A chuva recente deixara as calçadas brilhantes.
Leonardo usava um cachecol azul que Lívia tricotara no inverno anterior.
— O professor aprovou nosso tema — disse ele. — Começamos a pesquisa na segunda-feira.
Lívia sorriu.
— Então teremos trabalho até tarde outra vez.
— Minha mãe já decidiu mandar comida para a semana inteira.
— Sua mãe ainda acha que você não sabe cozinhar.
— Ela está certa.
Os dois riram.
Perto da saída do campus, um sedã preto estava estacionado junto ao meio-fio.
A porta traseira se abriu quando Lívia se aproximou.
Augusto desceu.
Ele estava mais magro, com fios grisalhos nas têmporas e marcas profundas ao redor dos olhos.
O terno continuava impecável.
O homem dentro dele, não.
Lívia parou.
Leonardo ficou ao lado dela, sem avançar ou esconder-se.
Augusto olhou primeiro para Lívia.
Depois, viu a mão de Leonardo perto das costas dela.
— Lívia.
Sua voz saiu rouca.
— Senhor Ferraz.
O cumprimento educado aprofundou as marcas em seu rosto.
— Vim para uma reunião do conselho regional.
Ela esperou o restante.
— Passei três dias tentando descobrir onde você morava.
— Meu endereço não é público.
— Eu sei.
Augusto deu um passo.
— A casa continua exatamente como você deixou.
Lívia segurou a xícara quente entre as mãos.
— O senhor deveria mudar algumas coisas.
— Não consigo.
Ele olhou para ela como se procurasse a jovem que organizara cinquenta e seis declarações.
— O piano ainda está na sala.
— Doe para uma escola.
— Seu quarto continua intacto.
— Use como escritório.
Augusto respirou fundo.
— Jante comigo hoje.
Leonardo não interferiu.
A decisão pertencia a Lívia.
— Apenas um jantar — insistiu Augusto. — Depois, nunca mais incomodo você.
Ela observou a mão que ele estendia.
Aquela mão já mudara panos frios sobre sua testa.
Também apontara para a câmara onde ela quase morreu.
As duas memórias eram verdadeiras.
Nenhuma delas obrigava Lívia a voltar.
— Não posso.
Augusto perdeu a pouca firmeza que ainda mantinha.
— Por quê?
— Leonardo e eu vamos jantar com os pais dele às seis.
O olhar de Augusto passou de Lívia para Leonardo.
Só então ele compreendeu que o colega não era mais apenas um colega.
— Você está com ele?
Lívia não ofereceu explicações.
Ela apenas voltou o rosto para Leonardo.
O sorriso que surgiu foi espontâneo e tranquilo.
Augusto nunca recebera aquele sorriso durante o casamento da primeira vida.
Naquela época, cada gesto de Lívia carregava medo, exigência ou desespero.
Agora, não havia esforço algum.
Leonardo apontou para a calçada molhada.
— Cuidado, Liv.
Ele não a segurou antes que ela escolhesse.
Lívia apoiou a mão em seu braço e desceu o pequeno degrau.
A antiga palavra deixou de parecer uma promessa feita por Augusto.
Tornou-se apenas cuidado real, oferecido sem dívida.
— Preciso ir, senhor Ferraz — disse Lívia.
Augusto manteve a mão estendida.
— Você não sente mais nada por mim?
Ela pensou antes de responder.
— Sinto gratidão pelo homem que me criou.
Augusto esperou algo além disso.
Nada veio.
— E pelo homem que mandou fechar aquela porta?
Lívia sustentou o olhar dele.
— Ele me ensinou a nunca entregar minha vida a alguém que se recusa a enxergar meu sofrimento.
Augusto abaixou a mão.
— Eu me arrependo todos os dias.
— Espero que um dia aprenda a viver com isso.
A chuva voltou em gotas finas.
Leonardo abriu o guarda-chuva e esperou Lívia se aproximar.
Ela entrou sob a cobertura por decisão própria.
Os dois seguiram pela calçada com passos ajustados ao mesmo ritmo.
Augusto permaneceu ao lado do carro.
Durante anos, acreditara que Lívia jamais conseguiria viver longe dele.
A verdade final era o contrário.
Ele era quem não aprendera a existir sem ela.
Lívia não olhou para trás.
Quando Leonardo perguntou o que os pais dele gostariam de sobremesa, ela respondeu sem hesitar.
A conversa continuou enquanto Augusto desaparecia entre os carros e a chuva.
Na primeira vida, Lívia tentara possuir o homem que amava e destruíra os dois.
Na segunda, salvou Augusto ao deixá-lo seguir Clara.
Depois, salvou a si mesma ao não voltar quando ele finalmente quis segurá-la.
A mão de Augusto ficou vazia.
As de Lívia carregavam uma xícara quente, seus próprios projetos e uma vida que já não precisava da permissão dele.