A Novata Que Dormiu No Terror E Fez O Solar Confessar O Crime-Neyney

Quando o sistema me jogou no Solar da Neblina, eu caí sentada numa cadeira de jacarandá.

O saguão parecia um antigo hotel de Ouro Preto fechado havia décadas.

Havia azulejos gastos, cheiro de madeira molhada e nove jogadores classe A me encarando.

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Eu era classe C.

Caio leu meu painel e deu uma risada curta.

— Isso é castigo do sistema.

Uma mulher chamada Lúcia franziu a testa.

— Talvez ela tenha uma habilidade rara.

Todos olharam para mim.

Eu pensei com cuidado.

— Eu durmo muito bem.

A mesa inteira ficou muda.

Depois veio a gargalhada.

Caio decidiu que eu ficaria no quarto do porão.

Era o pior quarto da instância.

A porta tinha marcas antigas, o ar era frio, e um retrato de mulher pálida ficava acima da cama.

Para mim, parecia um milagre.

Eu tinha passado quatro anos dividindo república em Belo Horizonte.

Uma cama grande, um quarto sozinho e silêncio eram luxo.

Tirei os tênis, vesti meu pijama de algodão e apaguei.

À meia-noite, o retrato abriu os olhos.

A voz dela raspou pela parede.

— Ele é meu pesadelo mais fundo. Eu sou o segredo mais próximo dele. Temos o mesmo sangue. Quem é ele?

Eu respondi rangendo os dentes.

O retrato repetiu a pergunta.

Eu virei de lado e ronquei.

Na manhã seguinte, ela me encarava como professora corrigindo prova em branco.

O sistema mandou todos para o café.

Caio tinha comido minha parte.

— Você não dura mesmo — ele disse.

Lúcia empurrou uma caixinha de leite morno para mim.

— Fica com a minha.

Eu aceitei.

— Você acaba de salvar uma vida.

Ela achou que eu falava da instância.

Eu falava do meu SONO.

Na segunda noite, Caio me deu o quarto da menina.

O jogador anterior tinha saído dali em estado que ninguém queria comentar.

Eu entrei, olhei a bagunça e fui buscar vassoura.

Limpei o piso, troquei o lençol e deixei a janela aberta.

— Criança sem rotina vira assombração malcriada — murmurei.

De madrugada, a menina apareceu no teto.

Ela usava camisola manchada e tinha olhos enormes.

Pulou na cama para me assustar.

Eu acordei só o bastante para jogar o edredom por cima dela.

Enrolei a menina como cobertor de bebê.

— Silêncio, pequena. Gente cansada não grita.

Ela mostrou dentes.

Eu dei tapinhas nas costas dela.

— Olha esses olhos. Você está virada no plantão faz décadas.

A menina piscou.

Depois chorou uma lágrima escura e dormiu.

Na manhã seguinte, os veteranos me viram inteira.

Caio perdeu meio tom de confiança.

Na terceira noite, o sistema avisou que o chefe final começaria a circular.

Os veteranos pegaram os quartos grandes.

Eu escolhi o menor, porque parecia meu quarto de infância.

O sistema perguntou se eu tinha certeza.

— Absoluta.

O colchão era perfeito.

À meia-noite, passos pesados pararam ao lado da cama.

O chefe final era alto, frio e costurado como uma mentira mal fechada.

Eu estava com calor.

Puxei aquele frio para perto e abracei.

Ele ficou rígido.

— Você vai abrir os olhos?

— Cinco minutinhos.

— Eu sou o pesadelo deste solar.

— Então fica quietinho desse lado.

O sistema falhou em extrair medo.

O chefe final tentou se soltar.

Eu abracei mais forte.

Na manhã seguinte, meu cobertor estava arrumado com cuidado cirúrgico.

Foi quando Caio entendeu que eu era útil.

Ele não queria me proteger.

Queria me gastar.

Nos dias seguintes, encontrei pistas sem procurar.

Escolhi a biblioteca porque parecia silenciosa.

Achei um diário antigo debaixo de uma almofada.

Escolhi a salinha da menina porque a poltrona parecia macia.

Achei a boneca original atrás do balanço.

Evitei o quarto maior porque tinha corrente de ar ruim.

Acabei entrando numa passagem de serviço que ninguém tinha visto.

Nada disso parecia investigação.

Parecia logística de cochilo.

Casa que guarda mentira sempre range mais alto perto de quem não tem medo dela.

O retrato da mulher voltou a perguntar o enigma.

Eu estava quase dormindo.

— É seu irmão — murmurei.

O quadro rachou.

O sistema anunciou rota verdadeira aberta.

Foi aí que Caio decidiu me trancar no salão.

Lúcia tentou avisar.

— Bruna, ele vai usar você como isca.

Eu abri um olho.

— Tem café antes?

Ela me sacudiu.

— É sério.

— Meu cochilo também.

Caio inventou uma pista perto do lustre.

Quando entrei no salão, as portas fecharam atrás de mim.

A chave ficou no bolso dele.

Pelo vão, ouvi a voz de Caio.

— Classe C serve de isca.

O círculo no piso acendeu.

O chefe final apareceu no centro do salão.

Ele olhou para mim.

— Você se atrasou.

Eu olhei para as janelas altas.

— Você escolheu o cômodo mais gelado da casa.

Ele quase riu.

A porta tremeu.

Do lado de fora, Lúcia gritava.

O chefe final não atacou.

Ele me mostrou uma memória.

A família do Solar da Neblina jantava numa noite comum.

A mulher do retrato tentava proteger a filha.

O irmão dela sorria perto da mesa de herança.

Ele queria o solar, o dinheiro e o nome da família.

Quando terminaram de confiar nele, terminaram mortos.

O homem que virou chefe final já estava morto antes da culpa cair sobre ele.

O irmão costurou o corpo, espalhou a versão falsa e transformou o morto mais assustador no culpado perfeito.

Eu acordei o suficiente para ficar irritada.

— Então culparam o defunto com pior aparência.

O chefe final não respondeu.

Não precisava.

As portas se abriram sozinhas.

Caio esperava ver meu fim.

Viu o chefe final ao meu lado.

A menina fantasma segurava minha manga.

O retrato da mulher tremia no corredor.

— O assassino foi o irmão — eu disse. — Ele matou a família e culpou o morto costurado.

O sistema ficou silencioso.

Depois brilhou.

Verdadeiro culpado identificado.

Chefe falso corrigido.

Final oculto desbloqueado.

Caio deu um passo para trás.

O sistema anunciou a sabotagem dele.

Jogador Caio detectado tentando sacrificar outra jogadora.

Elegibilidade de recompensa reduzida.

Integridade do artefato comprometida.

A chave caiu do bolso dele e bateu no piso.

Todos os corredores atrás dele viraram o mesmo porão.

A mulher do retrato falou sem gritar.

— Você escolheu aquele quarto para ela.

A menina fantasma escreveu duas palavras na poeira.

Sua vez.

Caio correu.

O solar não deixou.

Ele voltou de joelhos, com o artefato rachado e a voz quebrada.

— Me salva. Eu te dou minha parte da recompensa.

Eu bocejei.

— Não salvo gente que chama covardia de estratégia.

Os outros veteranos perderam artefatos também.

Quem ajudou Caio ficou preso em cômodos que imitavam as próprias escolhas.

Um limpou o quarto da menina até amanhecer.

Outro respondeu ao enigma do retrato até a voz falhar.

O sistema registrou cada tentativa de troca.

Recompensa revogada.

Avaliação reduzida.

Propriedade de artefato removida.

Lúcia quase caiu numa armadilha separada.

Ela bebeu o leite morno que eu tinha dado.

A menina fantasma sentou perto dela e não atacou.

O pesadelo não encontrou medo suficiente para prender Lúcia.

— Eu não acredito que leite salvou minha vida — ela disse, rindo e chorando.

— As pessoas subestimam laticínios.

O ritual final aconteceu na sala de retratos.

Colocamos o diário, a boneca, o fio costurado e o retrato do irmão no centro.

O sistema pediu confirmação.

— O irmão — respondi. — Atualiza isso logo, por favor.

O solar respirou.

Foi essa a sensação.

A mulher do retrato parou de sangrar tinta.

A menina apareceu limpa pela primeira vez.

O chefe final perdeu parte da postura monstruosa.

Por baixo da costura, ele parecia apenas cansado.

— Você foi a primeira que ouviu — disse a mulher.

— Eu dormi durante boa parte.

— Mesmo assim.

A menina abraçou minha manta.

O chefe final me olhou como se quisesse perguntar algo impossível.

— Quando acordar, vai lembrar de mim?

— Só se prometer continuar gelado.

Ele quase sorriu.

O sistema anunciou minha limpeza da instância.

Avaliação SSS.

Título especial desbloqueado: A Dorminhoca Que Confortou Pesadelos.

Título bônus desbloqueado: Usuária de Chefe Final Como Travesseiro.

Lúcia recebeu recompensa aumentada por bondade inicial.

Caio saiu vivo, mas sem prêmio.

A guilda dele o abandonou antes do fim do dia.

Os clipes da traição rodaram pela plataforma inteira.

Quando perguntaram meu segredo para limpar uma instância classe A, respondi sem pensar.

— Pijama, leite morno e não discutir com morto cansado.

Voltei para meu quarto real depois.

Era pequeno, comum e sem retratos malditos.

Deitei na minha cama.

Um frio familiar passou perto do travesseiro.

Na mesa de cabeceira, havia um pequeno amuleto de cobertor, costurado torto e com cuidado.

Ele não estava ali de manhã.

Sorri, fechei os olhos e puxei a manta até o queixo.

Eles me chamaram de novata porque eu dormia no perigo.

Ao amanhecer, o solar contou a verdade.

Os fantasmas descansaram.

E os veteranos aprenderam uma regra simples.

Nunca acorde uma mulher que sabe dormir no meio do inferno.

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