A Esposa Que Assinou O Divórcio E Achou Um Nome Na Lista Do Jato-nhu9999

O tampo de vidro da sala de reuniões devolveu a Ana Silva a imagem de uma mulher que ainda estava sentada, mas que, por dentro, já tinha começado a levantar.

Marcelo Santos empurrou a pasta bege pela mesa com dois dedos, como se tivesse medo de encostar demais naquela parte da vida dele.

«Assine e saia com dignidade, porque não resta mais nada a discutir.»

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Ele disse isso sem raiva visível.

Foi o que doeu mais.

Raiva ainda reconhece a existência do outro.

Frieza organiza o desaparecimento.

Ana olhou para a caneta cara colocada sobre a primeira página e para o nome impresso logo abaixo de um título jurídico que parecia limpo demais para conter tanta humilhação.

Ana Silva Santos.

Durante doze anos, aquele sobrenome tinha entrado em crachás de eventos, convites de casamento, listas de convidados, reservas de restaurante e cartões de fim de ano.

Ela nunca tinha pensado nele como uma perda de si mesma.

Naquele instante, pensou.

A sala ficava em um prédio empresarial de São Paulo, com carpete claro, água mineral sobre aparador e uma vista alta demais para quem estava sendo jogada no chão.

O advogado de Marcelo estava sentado no canto, fingindo atenção nos papéis.

Fingia mal.

Marcelo ajeitou a manga do blazer.

«Vamos, Ana. Não faça uma cena. Isso já foi difícil o bastante para todos.»

Para todos.

A frase abriu nela um tipo de silêncio que não era vazio.

Era acúmulo.

Marcelo já havia preparado tudo antes de chamá-la para aquela reunião.

As fechaduras do apartamento nos Jardins tinham sido trocadas.

Os cartões tinham sido cancelados.

A conta conjunta aparecia como restrita.

O dinheiro que eles movimentavam juntos já não estava onde deveria estar.

A versão pública, ele também tinha escrito antes dela sentar ali.

A relação se desgastou.

Foi uma decisão madura.

Cada um merece paz.

Essa era a parte que os amigos ouviriam.

A parte que ninguém ouviria era que Camila, a consultora mais jovem que ria antes das piadas terminarem, estava ao lado de Marcelo havia 8 meses.

Ana sabia disso havia pouco tempo.

Mas sabia o suficiente.

Sabia o restaurante onde eles tinham almoçado enquanto ela organizava um jantar de investidores para ele.

Sabia o perfume que apareceu duas vezes no banco do carro.

Sabia a mudança no tom de voz quando ele dizia que chegaria tarde.

Nenhuma dessas coisas tinha preparado Ana para a pasta bege.

A traição do corpo machuca de um jeito.

A traição administrativa machuca de outro.

Existe uma crueldade particular em transformar abandono em procedimento.

Marcelo não queria apenas sair.

Ele queria que a saída dele parecesse impecável.

Ana pegou a caneta.

Durante anos, ela tinha sido a esposa que fazia as engrenagens girarem sem aparecer.

Ela lembrava datas de sócios.

Ela sabia qual cliente preferia café sem açúcar e qual investidor se irritava com atraso de cinco minutos.

Ela revisava apresentações às duas da manhã, trocava termos ruins por frases elegantes e via Marcelo repetir tudo no dia seguinte como se tivesse nascido com aquela clareza.

Ela nunca colocou seu nome em nada.

Essa tinha sido a primeira renúncia.

Depois vieram outras.

Uma viagem adiada.

Um curso recusado.

Uma vaga que ela nem respondeu porque Marcelo disse que a empresa precisava dela em casa, mesmo que nunca chamasse aquilo de trabalho.

O pior tipo de apagamento não acontece em uma tarde.

Ele vai pedindo licença em pequenas doses até ocupar a casa inteira.

Ana inclinou o corpo sobre a mesa e assinou.

Ana Silva.

Sem Santos.

Marcelo piscou.

Foi quase nada.

Mas ela viu.

Ele esperava lágrimas.

Esperava que a mão dela falhasse.

Esperava que ela perguntasse como faria dali em diante, onde dormiria, que dinheiro teria, a quem telefonaria.

Ana fechou a caneta e a colocou sobre o vidro.

«É só isso?»

O advogado parou de mexer na pasta.

Marcelo recostou-se como se a pergunta o ofendesse.

«Meu advogado vai te passar os detalhes. Deixei alguma coisa para você começar. Não sou um monstro.»

Ana se levantou antes que ele terminasse de representar generosidade.

«Não. Você é pior. Porque acredita que é generoso.»

O rosto de Marcelo endureceu.

Aquele homem sabia presidir mesas, intimidar fornecedores, sorrir para fotógrafos e corrigir garçons sem levantar a voz.

Mas ele nunca soube ser contrariado sem procurar uma forma de punição.

«Cuidado com o seu tom.»

Durante doze anos, essa frase tinha baixado o volume dela.

Naquele dia, não.

Ana pegou a bolsa e saiu.

O corredor do prédio estava silencioso, com cheiro de produto caro e ar gelado.

No elevador, ela olhou para o reflexo metálico das portas e viu uma mulher de 40 anos com o cabelo preso, casaco claro e uma calma que parecia emprestada.

Ela não se sentia forte.

Sentia-se vazia.

Mas havia uma diferença entre vazio e rendição.

Lá embaixo, o celular vibrou antes que ela chegasse à calçada.

Cartão recusado.

Ela achou que fosse erro.

Abriu o aplicativo do banco com os dedos frios.

Conta restrita.

Outra conta encerrada.

Limite indisponível.

Uma transferência feita pouco antes da reunião.

O comprovante tinha horário.

Marcelo não tinha improvisado.

Ele tinha colocado a humilhação em agenda.

Ana ficou parada na calçada enquanto gente passava com café, mochila, notebook e pressa.

A cidade não percebe quando uma vida desaba.

Ela só abre espaço para a próxima pessoa atravessar.

Ana chamou um carro por aplicativo com o saldo da conta pessoal que Marcelo sempre chamava de sua reservinha.

Ela odiou ter lembrado da palavra.

R$ 38.000.

Era dinheiro, mas também era a confirmação de que ele achava que até a segurança dela cabia em diminutivo.

No condomínio dos Jardins, o porteiro se levantou antes de ela falar.

Ele era um homem discreto, de fala baixa, que havia recebido flores no aniversário dela e chamado técnicos quando a geladeira quebrou.

Naquele dia, não conseguiu sustentar o olhar.

«Dona Ana… me desculpa. O senhor Marcelo deixou orientação para a senhora não subir.»

O hall tinha arranjos de flores brancas e piso brilhando.

A vida dela ainda estava lá em cima.

A escova de cabelo.

As fotos da mãe.

A caixa com cartas antigas.

O vestido que ela usara no primeiro jantar com os sócios de Marcelo.

«Minhas coisas?»

O porteiro passou a mão pelo balcão.

«Disseram que vão mandar para um depósito. A senhora vai receber um número de protocolo.»

Um número de protocolo.

Foi assim que doze anos encolheram.

Ana sentiu uma pressão atrás dos olhos, mas não chorou.

Não por orgulho.

Por estratégia.

Se chorasse ali, o choro voltaria para Marcelo em forma de relato.

Ela não daria a ele esse recibo.

Sentou-se do lado de fora do prédio por alguns minutos e abriu a bolsa.

Documento.

Celular.

Laptop.

Uma necessaire.

Os papéis do divórcio.

Tudo que era permitido a ela naquele momento cabia sobre o colo.

Quando anoiteceu, pagou em dinheiro por um quarto simples perto da Avenida Paulista.

A recepção tinha luz branca demais e um balcão com riscos antigos.

O recepcionista pediu documento, olhou a mala pequena, olhou a aliança que já não estava no dedo dela e não perguntou nada.

No quarto, a janela dava para a parede lateral de outro prédio.

A colcha tinha flores desbotadas.

Havia um copo de plástico ao lado de dois sachês de açúcar.

Ana fechou a porta, encostou a testa na madeira por alguns segundos e respirou até o corpo obedecer.

Depois tirou os saltos.

Abriu o laptop.

Começou a procurar trabalho pela primeira vez em uma década.

Ela atualizou um currículo antigo.

Apagou uma linha que dizia experiência em suporte executivo informal.

Reescreveu.

Gestão de relacionamento com investidores.

Análise de apresentações estratégicas.

Organização de agenda corporativa.

Revisão de propostas comerciais.

Ela sabia fazer tudo aquilo.

O mundo é que costumava aceitar esse trabalho com mais facilidade quando um homem assinava embaixo.

Às 23h47, Ana já tinha enviado 14 currículos.

Três respostas chegaram quase iguais.

Agradeciam o interesse.

Perguntavam sobre a lacuna na experiência profissional.

Lacuna.

Ana leu a palavra tantas vezes que ela deixou de parecer palavra.

Pareceu sentença.

Não era lacuna.

Era trabalho sem testemunha.

Ela abriu a pasta bege de novo.

O papel tinha cheiro de escritório.

As cláusulas falavam em acordo, partilha, renúncia, transição.

Nenhuma palavra dizia abandono.

Nenhuma palavra dizia que Marcelo trocara a fechadura antes que ela soubesse onde dormiria.

Nenhuma palavra dizia Camila.

Ana fotografou cada página.

Salvou em uma pasta no laptop.

Nomeou com data e horário.

Depois salvou outra cópia no e-mail.

Ela não sabia ainda o que faria com aquilo.

Mas sabia que uma mulher sem documentos vira versão dos outros muito rápido.

O celular tocou com número desconhecido pouco depois da meia-noite.

Ana olhou para a tela e pensou em não atender.

Podia ser banco.

Podia ser Marcelo.

Podia ser alguém da vida antiga chamando pelo sobrenome errado.

Atendeu na terceira chamada.

«A senhora Ana Silva?»

A forma como a mulher disse Silva fez Ana ficar imóvel.

«Quem está falando?»

«Meu nome é Patrícia Costa. Sou assistente pessoal do senhor Eduardo Almeida, presidente do Grupo Almeida. Ele quer vê-la ainda hoje.»

Ana franziu a testa.

«Eu não conheço esse senhor.»

Houve uma pausa curta, como se Patrícia já esperasse essa resposta.

«Ele disse que a senhora salvou uma empresa dele há 5 anos, em uma reunião informal, com um esquema desenhado num guardanapo.»

O quarto pareceu estreitar.

Ana se lembrou antes de querer lembrar.

Cinco anos antes, Marcelo havia marcado um jantar com um empresário do setor de logística e passado metade do tempo do lado de fora atendendo ligações.

O homem que ficara à mesa parecia cansado.

Tinha falado de uma unidade que sangrava dinheiro, de rotas ruins, contratos mal amarrados, centros de distribuição brigando entre si.

Ana tinha ouvido por educação.

Depois, por vício.

Problemas organizados chamavam a atenção dela.

Ela puxara um guardanapo, desenhara três colunas, riscara duas setas e explicou onde o gargalo estava se escondendo.

Não falou como consultora.

Falou como quem enxergava a bagunça.

Foram 20 minutos.

Quando Marcelo voltou, riu e chamou aquilo de mania de se meter onde não devia.

O empresário não riu.

Ana nunca mais pensou no assunto.

«Aquilo foi só uma conversa», ela disse ao telefone.

Patrícia respondeu sem pressa.

«Para ele, valeu R$ 400 milhões.»

Ana sentou na beira da cama.

A lâmpada piscou.

O barulho da Avenida chegava abafado pela janela.

«Não estou entendendo.»

«O senhor Eduardo pediu que eu fosse objetiva. Ele soube hoje que a senhora não está mais vinculada ao senhor Marcelo Santos. Ele também soube das circunstâncias.»

Ana fechou os olhos por um instante.

As circunstâncias.

Era uma palavra educada para dizer que alguém poderoso tinha ouvido que ela fora deixada sem casa e sem acesso ao próprio dinheiro.

«Como ele soube?»

«Pelo próprio senhor Marcelo.»

Ana ficou em silêncio.

Patrícia continuou.

«Em uma ligação comercial, ele comentou que a separação tinha sido resolvida e que a senhora não participaria mais de assuntos da agenda dele. O senhor Eduardo perguntou se era a mesma Ana do guardanapo.»

O quarto ficou quieto demais.

«E?»

«E quando o senhor Marcelo tentou minimizar, o senhor Eduardo pediu que eu localizasse a senhora.»

Ana olhou para os papéis do divórcio.

A assinatura sem Santos parecia outra coisa agora.

Não um fim.

Um endereço.

«Por quê?»

«Porque ele quer falar com a pessoa certa.»

Ana riu sem som.

Tinha passado tantos anos sendo tratada como extensão que a expressão pessoa certa chegou quase ofensiva.

«Senhora Ana», Patrícia disse, «um jato particular foi enviado para o aeroporto executivo com o seu nome na lista. O piloto aguarda apenas a confirmação.»

Ana se levantou devagar.

«Confirmação de quê?»

«Do nome que deve constar na autorização de embarque.»

Ela olhou para a mala aberta no chão.

Olhou para a pasta bege.

Olhou para a cadeira onde o casaco estava pendurado.

«Ana Silva», disse.

O som do teclado veio do outro lado.

«Perfeito.»

O carro chegou em 12 minutos.

O recepcionista do hotel viu o motorista descer, abrir a porta traseira e perguntar por Ana Silva com uma formalidade que mudou o ar do corredor.

A mesma pessoa que havia pedido pagamento adiantado agora ofereceu ajuda com a mala.

Ana agradeceu sem aceitar.

No carro, não chorou.

A cidade passou pelas janelas em faixas de luz.

Prédios, farmácias, pontos de ônibus, padarias fechando, gente cansada voltando para casa.

Ela não tinha casa para voltar.

Mas, pela primeira vez naquela noite, tinha destino.

Patrícia ligou de novo quando o carro entrou na via de acesso ao aeroporto executivo.

«O senhor Eduardo pediu que eu avisasse uma coisa antes do embarque.»

Ana segurou o celular com mais força.

«Sim.»

«O guardanapo daquela noite não foi jogado fora.»

Ana ficou muda.

«Ele guardou?»

«Guardou. E tem uma anotação no verso que muda a versão que o senhor Marcelo repetiu durante 5 anos.»

O carro parou diante de uma entrada discreta.

Não havia tapete vermelho.

Não havia música.

Só vidro, luz clara, segurança, um funcionário com prancheta e, do outro lado da pista, um jato branco parado sob refletores.

Ana desceu segurando a pasta bege.

O ar da noite cheirava a combustível, asfalto e vento.

Patrícia a esperava no saguão.

Era uma mulher de camisa clara, cabelo preso e olhar direto.

Não abraçou Ana.

Não fingiu intimidade.

Apenas estendeu a mão.

«Senhora Ana.»

«Ana, por favor.»

Patrícia assentiu.

«Ele está esperando.»

Eduardo Almeida estava em uma sala pequena com vista para a pista.

Não parecia o tipo de homem que precisava parecer poderoso.

Usava camisa sem gravata, óculos na mão e uma expressão que misturava cansaço e gratidão.

Quando Ana entrou, ele se levantou.

«Finalmente posso agradecer olhando para a pessoa certa.»

Ana não respondeu de imediato.

O corpo dela ainda estava preparado para defesa.

Eduardo apontou para a mesa.

Sobre ela havia uma pasta rígida transparente.

Dentro, protegido por plástico, estava o guardanapo.

Cinco anos tinham amarelado um pouco o papel.

As linhas dela ainda estavam lá.

Três colunas.

Duas setas.

Um círculo em volta do ponto que ela chamara de nó central.

No verso, uma frase escrita por Eduardo, com data.

Ideia apresentada por Ana Silva, durante jantar com Marcelo Santos.

Ana levou a mão à boca.

Não foi um choro grande.

Foi uma falha pequena no controle.

Eduardo esperou.

«Depois daquela noite», ele disse, «sua estrutura salvou uma operação que eu estava prestes a vender com prejuízo. O impacto final foi de aproximadamente R$ 400 milhões.»

Ana olhou para o guardanapo como se ele fosse uma foto de alguém que ela tinha sido antes de desaparecer.

«Marcelo disse que tinha adaptado um raciocínio seu», Eduardo continuou. «Com o tempo, percebi que ele não conseguia explicar o próprio raciocínio.»

Ana quase sorriu.

«Ele nunca gostou de explicar o que não fez.»

Eduardo aceitou a frase sem espetáculo.

«Hoje, quando ele me disse que a senhora não estaria mais em volta, eu entendi duas coisas. A primeira é que ele ainda não sabe o que perdeu. A segunda é que eu não quero negociar com quem não reconhece autoria.»

Ana olhou para a pista.

O jato parecia grande demais para a mulher que, uma hora antes, estava contando sachês de café em um quarto barato.

«Eu não preciso de caridade», ela disse.

Eduardo balançou a cabeça.

«Não estou oferecendo caridade.»

Ele abriu outra pasta.

Dessa vez, não empurrou nada para ela como Marcelo havia feito.

Apenas virou a primeira página para que ela lesse.

Era uma proposta de consultoria estratégica.

Honorários mensais.

Adiantamento.

Hospedagem temporária paga pela empresa durante a transição.

Equipe própria.

Crédito formal pela metodologia usada no projeto antigo.

O nome no cabeçalho era Ana Silva.

Sem Santos.

Ela leu duas vezes.

Não porque não entendesse.

Porque precisava ter certeza de que seu nome não desapareceria na segunda página.

«Por que agora?»

Eduardo cruzou as mãos.

«Porque hoje foi a primeira vez que eu soube que a senhora estava livre para assinar por si mesma.»

Ana olhou para Patrícia.

A assistente mantinha os olhos no tablet, mas a mandíbula dela estava tensa.

Talvez tivesse visto muitas mulheres competentes virarem notas de rodapé em salas como aquela.

Talvez só estivesse com pressa de embarcar.

Ana voltou ao documento.

«E Marcelo?»

«O contrato que eu discutiria com ele está suspenso.»

A frase não veio com vingança.

Veio com consequência.

«Ele vai dizer que isso é retaliação.»

«Ele pode dizer o que quiser. Eu tenho o guardanapo, a data e cinco anos de reuniões em que ele não conseguiu responder uma pergunta técnica sem consultar a senhora depois.»

Ana não sabia o que fazer com aquela justiça tão simples.

Não era prisão.

Não era escândalo público.

Não era uma multidão aplaudindo.

Era pior para Marcelo.

Era uma sala silenciosa reconhecendo que ele dependia da mulher que tentou reduzir a protocolo.

Eduardo empurrou uma caneta na direção dela.

Não era a caneta de Marcelo.

Era comum, de tampa azul.

Talvez por isso Ana gostou dela.

Antes de assinar, leu cada cláusula.

Uma por uma.

Patrícia esperou.

Eduardo esperou.

Ninguém suspirou.

Ninguém mandou ela acelerar.

Quando terminou, Ana pegou a caneta e assinou no espaço indicado.

Ana Silva.

A mão tremeu só no ponto final.

Eduardo não sorriu como quem vence.

Sorriu como quem confirma.

«O avião está pronto.»

Ana embarcou levando a bolsa, o laptop e a pasta bege.

Pela janela oval, viu a pista iluminada e pensou no apartamento que não podia mais entrar.

Pensou nas caixas que iriam para um depósito.

Pensou no porteiro dizendo número de protocolo.

Depois olhou para o guardanapo digitalizado no tablet de Patrícia.

Havia dias em que uma vida inteira cabia em caixas.

Havia noites em que ela cabia em um pedaço de papel que alguém teve a decência de guardar.

O jato decolou pouco antes das duas da manhã.

No ar, Eduardo explicou o projeto.

Uma unidade em crise.

Rotas mal desenhadas.

Contratos que Marcelo prometera revisar, mas nunca entendera.

Ana fez perguntas.

Não perguntas tímidas.

Perguntas de quem tinha passado anos vendo o mapa por trás do discurso.

Eduardo respondeu todas.

Quando não sabia, dizia que não sabia.

Ana percebeu como era estranho conversar com um homem que não confundia autoridade com onisciência.

Às 3h26, Patrícia recebeu uma mensagem.

Olhou para a tela, depois para Eduardo.

«É o senhor Marcelo.»

Eduardo não pegou o celular.

«Assunto?»

«Ele pergunta se houve algum mal-entendido sobre a reunião da próxima semana.»

Ana abaixou os olhos para a pasta bege no colo.

Eduardo apenas disse:

«Responda que conversaremos quando a equipe técnica correta estiver definida.»

Patrícia digitou.

Alguns segundos depois, outra mensagem chegou.

Dessa vez, Patrícia não leu em voz alta.

A expressão dela bastou.

A confiança de Marcelo tinha encontrado a primeira porta fechada.

Ana não sentiu alegria.

Sentiu uma exaustão enorme.

Como se o corpo, agora seguro o bastante para parar, enfim cobrasse tudo.

Encostou a cabeça no assento e fechou os olhos.

A frase do advogado voltou.

A relação se desgastou.

Não.

A relação tinha sido desgastada.

Polida por fora, corroída por dentro, até ele acreditar que poderia tirar casa, conta e sobrenome e ainda chamar aquilo de dignidade.

Quando pousaram, já havia amanhecido.

Ana desceu em outra cidade com o rosto cansado e a coluna mais reta.

Um carro os levou até a unidade que Eduardo queria que ela visse.

Não era cenário de conto.

Era trabalho.

Galpões, planilhas, gente esperando decisão, café ruim em copo descartável, quadro branco com números que não fechavam.

Ana entrou na primeira reunião com a mesma roupa da noite anterior.

Alguns executivos olharam para ela como quem tentava entender quem era aquela mulher sem crachá antigo, sem sobrenome conhecido, sem apresentação grandiosa.

Eduardo não explicou demais.

«Esta é Ana Silva. A partir de hoje, ela lidera a revisão estratégica.»

O silêncio que veio depois era diferente do silêncio na sala de Marcelo.

Lá, queriam que ela sumisse.

Aqui, esperavam que ela falasse.

Ana abriu o laptop.

Na primeira hora, não contou sua história.

Não mencionou o divórcio.

Não falou de Camila.

Não usou dor como credencial.

Pediu os contratos.

Pediu o histórico de rotas.

Pediu os relatórios de custo.

Às 11h15, encontrou o mesmo tipo de erro que havia visto cinco anos antes.

Não era idêntico.

Mas tinha a mesma assinatura de vaidade: uma decisão bonita na apresentação e absurda na operação.

Ela pegou uma caneta de quadro e desenhou três colunas.

Duas setas.

Um círculo.

A sala ficou quieta.

Eduardo, no fundo, não interrompeu.

Patrícia tirou uma foto do quadro, não escondida, não clandestina.

Documento de autoria, ela disse mais tarde.

Ana guardou essa frase.

Dois dias depois, Marcelo ligou.

Ela reconheceu o número e deixou tocar.

Na quarta chamada, atendeu.

A voz dele veio menor do que na sala de vidro.

«Ana, acho que precisamos conversar com calma.»

Ela olhou para o quadro branco cheio de notas.

«Meu advogado pode receber os seus pontos.»

Houve uma pausa.

«Você não entende o que está fazendo.»

A frase antiga tentou encontrar a coleira antiga.

Não encontrou.

«Entendo, sim.»

Marcelo respirou do outro lado.

«Eduardo está usando você para me atingir.»

Ana olhou para o guardanapo emoldurado provisoriamente sobre a mesa da sala de projeto.

Não era decoração.

Era prova.

«Não, Marcelo. Ele só está lendo o nome certo.»

Dessa vez, quem ficou em silêncio foi ele.

Ana encerrou a ligação sem levantar a voz.

Não houve discurso.

Não houve cena.

Algumas vitórias são pequenas demais para plateia e grandes demais para caber no peito.

Na semana seguinte, o apartamento ainda não era dela para entrar.

As caixas continuavam em depósito.

O divórcio ainda teria cláusulas, audiências, ajustes e todas as palavras frias que tentam organizar uma ruptura.

Mas Ana já não estava sentada no banco do lado de fora do prédio com a vida no colo.

Ela estava em uma sala de trabalho, com contrato assinado, equipe esperando resposta e um nome que voltava a ocupar espaço.

Ana Silva.

Sem Santos.

O sobrenome que Marcelo achou que retiraria dela acabou sendo o primeiro documento da reconstrução.

E quando, dias depois, as caixas chegaram ao endereço temporário pago pelo novo contrato, Ana abriu apenas uma.

Dentro estava uma moldura antiga com uma foto dela antes do casamento, sorrindo para alguma coisa fora da câmera.

Ela colocou a foto sobre a mesa.

Ao lado, deixou a cópia do contrato.

Não como troféu.

Como lembrete.

Marcelo tinha transformado doze anos em um número de protocolo.

Mas naquela noite, um guardanapo guardado por cinco anos provou que Ana nunca tinha sido lacuna.

Ela só tinha passado tempo demais assinando a vida dos outros.

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